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Por Hiroto e Helena Hayashi (dez/2005)
CICLOTURISMO PELO RIO TIETÊ
O Rio Tietê nasce cristalino na serra de Salesópolis a 1027m de altitude e “morre” em São Paulo por causa da poluição. Mas teima que quer viver e inicia a revitalização na altura de Cabreúva. Fica limpo na Barra Bonita a aproximadamente 450km
da nascente e daí para frente o rio mostra só alegria e beleza até a foz
na cidade de Itapura a 318m de altitude, onde deságua no Rio Paraná,
divisa com Mato Grosso do Sul.
Iniciamos a nossa pedalada no parque da nascente localizado em Salesópolis. Lá bebemos água da nascente e visitamos o museu com várias fotos e lembranças do Tietê. Curiosamente encontramos Denis Ferraz,
defensor e conhecedor do Rio Tietê e autor do livro “Tietê – Imagens que
o Brasil não vê”. Esse foi justamente o livro que tinha lido para obter
mais conhecimento sobre o rio. Com essa coincidência já senti que muita
coisa boa aconteceria durante o percurso.
Depois de Mogi das Cruzes partimos em direção à Suzano, enfrentamos chuva e em Poá comemos muitas frutas numa banca na estrada. Em Itaquaquecetuba o rio já está bem poluído, com todo tipo de sujeira boiando na água. Em São Paulo fomos conhecer o Parque Ecológico Tietê. Local de muita beleza, onde as pessoas podem caminhar pedalar, nadar, fazer churrasco e tem até um lago com pedalinhos. Vimos uma bicicleta tipo “limusine” para 4 pessoas, sendo que o último não pedala! Atravessamos a marginal e seguimos em direção à rodovia Castelo Branco. O trânsito estava infernal, com fechadas de veículos mais descuidados que passavam por nós. Esse foi o pior trecho em todo o percurso.
Santana de Parnaíba é a cidade onde começa Rota dos Romeiros e a
peregrinação do Caminho do Sol, muito conhecido entre os aventureiros.
Vale a pena conversar com Sr. Emanuel, proprietário da pousada 1896,
profundo conhecer do Rio Tietê. É na pousada dele que se dá início rota
“Caminho do Sol”. Segundo ele o leito do rio já foi bastante aprofundado
com explosivos para tornar o rio navegável até São Paulo num futuro
próximo.
Na praça da cidade vimos emocionados, uma fila de crianças, todas alegres recebendo presentes do Papai Noel. Um trabalho bonito da prefeitura local. Aqui um fato interessante acontece, o comércio e o museu ficam fechados durante a semana e só abrem nos finais de semana. Acampamos no Camping Cascata que fica no sentido Cabreúva. Esse camping fica na montanha e o caminho de acesso era tão íngreme que não conseguimos chegar até proximidade do restaurante e área de camping. Tivemos que acampar num gramado ao pé da subida. A Estrada Parque, que contorna o rio e vai de Cabreúva até a Rodovia Marechal Rondom em Itu, é de rara beleza, com muita sombra, pouco carro e sem subida.
Se o rio não fosse poluído ela seria um destino turístico.
Tem até ilhas com mata atlântica. No trevo de Marechal Rondom tem uma
ilha habitat das garças. Nunca vi tanta garça num só local. Deve ser
sinal de peixe. É o Tietê mostrando vida.
Depois de uma semana pedalando sentimos que conseguiríamos chegar até o
fim do percurso que havíamos planejado. Então despachamos os nossos
malabikes por correio até a cidade de Itapura, nosso destino final, para
diminuir o peso e volume de bagagem. Nessa cidade, encontra-se também a estátua de Nossa senhora de Lourdes, réplica da imagem existente em Lourdes na França, inaugurada em 1924. Na cidade de Tietê conversamos com o comerciante Sr. Paladini, e que já fez a rota do Tietê com barco inflável, canoa canadense e lancha.
Nossa
aventura saiu em dois jornais da cidade. Conhecemos também um ciclista
que apresentou a cidade e nos acompanhou até Laranjal Paulista mostrando
rotas alternativas para evitar estradas sem acostamento. Ele nos levou
para conhecer um pomar de jabuticabeiras com mais de 150 anos. A família
dele nos contou como é a festa mais tradicional da cidade, a festa do
divino.
Nos cinco quilômetros de subida da Serra de Botucatu, empurramos a
bicicleta o tempo todo sob chuva, e depois fomos até a cidade pedalando
contra o vento, esse foi o dia mais cansativo da viagem.
Assim que começamos a descer para atingir a cidade de Igaraçú do Tietê, avistamos o rio largo e bastante limpo com pessoas pescando, nadando, fazendo piquenique e curtindo som. Depois de passar mais de 450km só vendo poluição, essa imagem foi demais! A alegria do povo é tão bonita que a gente esquece qualquer dificuldade. Muitas pessoas quiseram saber mais sobre a nossa aventura. O rio fica limpo por causa da barragem de Barra Bonita que faz a decantação das impurezas e também porque muitos afluentes trazem água limpa nessa região.
Próximo da ponte de concreto, o pescador chega a pegar até 100kg de tilápia e vende a R$0,90/kg. Do outro lado do rio fica a cidade de Barra Bonita, que tem ótima estrutura turística, com a natureza a seu favor. É possível fazer passeios de barco passando pela eclusa na barragem. Nas margens do rio há lugar para caminhada, campo de futebol, parquinho para crianças, campo de basquete, pista de skate, teleférico, lanchonetes, feiras de artesanatos e até competição de som de carro. Possui até estacionamento para carros que vem rebocando barco com rampas adequadas para colocar o barco na água.
Em Pederneiras fomos conhecer o Porto Intermodal onde se encontram as cargas fluviais, ferroviárias e rodoviárias. Os grãos de soja que vêm pelo Tietê do Mato Grosso via embarcação chata de 150ton são transferidos para vagões ferroviários e seguem até o porto de Santos para serem exportados. Em Itajú não há pousada nem camping. Fomos abrigados por uma família simples, mas de coração muito amável. Lá mora Sr. Antônio, artesão que faz esculturas diversas, sendo o carro de boi a sua especialidade. Segundo ele, está difícil encontrar pinus e cedro hoje em dia.
Em Bariri tivemos oportunidade de ver a eclusagem de uma embarcação chata de carga descendo a barragem. São aproximadamente 30 minutos para completar a travessia. Neste local era proibido parar, mas de bicicleta dá-se um jeito. Fomos entrevistados ao vivo na rádio Ibitinga no dia seguinte.
Conhecemos até o prefeito. Passamos momentos agradáveis na pizzaria com
toda família do sr. Herculano, nosso anfitrião. Além de pagar o jantar, ele nos
ofereceu para
nos hospedarmos em sua casa.
Passamos por Borborema e Novo Horizonte.
Em Sales o Sr. Lino nos convidou para churrasco e passar a noite com
toda a família que estava reunida para reveillon, e lá tomamos banho no
rio Cervo, um rio imenso e limpo que é afluente do rio Tietê. Vimos muitas
maritacas fazendo um verdadeiro barulho na árvore. Nunca vimos tantas
maritacas juntas e por isso ficamos um bom tempo apreciando.
Nunca vi cidade com tanta bicicleta como Ubarana. É preciso tomar cuidado para não bater. Vi até uma senhora de terceira idade de triciclo. Em Buritama aproveitamos para secar a barraca no hotel. Conhecemos um construtor de casas que apesar de possuir carro, prefere andar de bicicleta. Ele nos guiou até a praia de Buritama que tem toda a estrutura turística e fica a aproximadamente 8km da cidade. Segundo ele, que é mergulhador do Rio Tietê, na cidade de Itapura a visibilidade chega até 8m na época boa de setembro.
Um pouco mais adiante tem um vilarejo de pescadores. Acertamos uma viagem de barco com 1h15 de duração até a ponte de Araçatuba. Enquanto o pescador preparava o barco fomos almoçar no restaurante Ponte Nova, cujos proprietários, por coincidência, eram de Salesópolis, cidade nascente do Rio Tietê. Eles ficaram encantados com a nossa viagem e ofereceram um “pratão” de peixe frito com mandioca. Foi demais. Uma delícia de porquinho, peixe pescado no rio Tietê. Eles chamaram toda a família para nos conhecer. Conversamos muito. O almoço foi oferta da casa em homenagem à nossa aventura. Muitíssimo obrigado !!! Depois ainda nos ofereceram manga para levar na viagem.
Ver o Rio Tietê de dentro para fora andando de barco é uma outra sensação muito especial. É pura natureza, coisa linda. Muitos pássaros, biguá pegando peixes, gente de barco pescando. Alguns acampando numa pequena ilha para pescaria. O nosso barqueiro bebeu água do rio. Segundo ele não tem problema nenhum. Eu coloquei água na boca, mas não bebi não. “Ainda não”. Ele pesca diariamente de 100 a 150kg de peixe por dia e a partir de março leva o barco de carro até o Rio Paraná para pegar de 300 a 500kg de peixe, pois de novembro a fevereiro a pesca é proibida aqui. Muitas multas que os pescadores recebem da fiscalização são pagas soltando alevino no rio.
Da ponte de Araçatuba até a cidade de Araçatuba são 16km de estrada sem acostamento, onde havia acostamento estava em precárias condições. Em Araçatuba conheci praia de areia e praia gramada, além de finalmente beber a água do rio Tietê. Oscar da Roda Livre nos presenteou camisas de ciclista e chamou a Rádio Clube FM para darmos entrevista. Pudemos também agradecer a BANDATUR (Banco de Dados de Turismo do Baixo Tietê) que nos ajudou fornecendo imagens turísticas da região de Araçatuba, antes de iniciarmos a nossa viagem. Choveu muito no fim da tarde. Como a chuva parecia não parar, colocamos as nossas bikes na Kombi da Roda Livre para levar até o hotel.
Araçatuba tem lençol freático de qualidade, e a água que se retira dessa fonte é uma das 5 melhores do mundo. No dia seguinte partimos para Auriflama, a cidade da lingerie. Como saímos tarde, a nossa preocupação era se conseguiríamos chegar. Anoiteceu e como só tínhamos um farol dianteiro e uma lanterna traseira, eu ia na frente com o farol iluminando o caminho e a Helena vinha atrás com a lanterna traseira sinalizando para os carros que vinham por trás. Conseguimos chegar já era mais de 22h. No dia seguinte completamos 1.000km de
viagem. No caminho tivemos que pedir abrigo numa fazenda por causa da chuva
forte que vinha. Muito prestativo, o dono nos deu manga (Keite e Haden).
Novamente amanheceu chovendo, e acabamos saindo tarde com destino a Itapura. A
metade da cidade ficou submersa por causa da construção da represa e isso atrai
mergulhadores para essa região. A profundidade pode chegar até 40m. Quando
chegamos em Itapura, a última cidade da viagem, o odômetro marcava 1081km
percorridos. Por não ter como chegar pedalando fomos de barco desde praia de Itapura até a foz do rio Tietê, onde ele se encontra com o rio Paraná. Fiquei contente em ver que o rio Tietê é mais limpo que o rio Paraná. Bem aqui na foz e também onde termina nossa aventura, sem nenhuma dúvida, bebi a água do Tietê.
Guardamos a bike em mala bike e voltamos de ônibus. Ônibus nessa cidade é outro
problema. Precisamos pegar circular até a cidade de Ilha Solteira para depois ir
até São José do Rio Preto e depois até São José dos campos. Essa é uma outra
aventura. NÚMEROS DA VIAGEM:
DICAS:
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