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Por Eliana Garcia (maio/2004)
Terra Ronca - Chapada dos Veadeiros
Eu já conhecia a região de
Terra Ronca e, como acontece com todos que já estão viciados em
cicloturismo, tinha muita vontade de voltar lá, só que de bicicleta. Um
incentivo a mais para decidirmos pela viagem foram as dicas que
recebemos de amigos espeleólogos, que haviam voltado há pouco tempo das
cavernas da região. Disseram ser possível sair de Terra Ronca e chegar
ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros quase que exclusivamente por
estradas de terra. Bastou para que decidíssemos viajar por lá em nossas
férias que se aproximavam.
Pedalando no Sertão de Goiás
Descobrimos que os goianos
são muito acolhedores e prestativos, além de sempre dispostos a um
dedinho de prosa:
Mas não havia casa, nem nada
por ali. Para complicar todas as fazendas tinham cerca, dos dois lados
da estrada. Não estávamos muito a fim de invadir propriedade alheia, com
risco de arranjar confusão logo no primeiro dia da viagem. Assim,
seguimos mais um ou dois quilômetros empurrando as bicicletas, ladeira
acima e noite adentro. Até que surgiu um lugar perfeito: plano, sem
cercas e com uma clareira bem grande no meio do cerrado. Estranhamos um
pouco a tamanha “área de camping” de presente para nós, mas de tão
cansados, nem nos questionamos muito e armamos acampamento.
Descobrindo Terra Ronca
O PETER possui a maior
concentração de cavernas grandes do Brasil, mas assim como outros
parques, sofre com a falta de estrutura e de funcionários, e ainda luta
com a situação fundiária, uma vez que os proprietários de terras não
foram indenizados pela criação do parque. Do lado de fora da caverna, alguns postes de iluminação destoam também da natureza local. Na época da festa da santa padroeira, no início de agosto, a área deve ficar bastante insuportável, com os mil e quinhentos turistas e religiosos que a visitam.
Para conhecer o interior da caverna com calma, reservamos um dia inteiro. Alternando trechos de escuridão total, com outros de luz, caminhamos quase todo o tempo por dentro do rio. O esforço físico é grande, foram oito horas no total, mas o grau de dificuldade não é tão alto. A segunda caverna que visitamos foi a de São Bernardo, distante cerca de 10km a partir de Terra Ronca, voltando em direção à cidade de Guarani. Nosso grupo agora parecia o exército de Branca Leone: duas bicicletas, nosso guia num burrico uma outra ecoturista numa égua. Logo apelidada de Genoveva, está égua deu trabalho e acabou empinando.
Assim, o guia continuou o caminho a pé, a turista no burrico e nós nas bicicletas. Bicho mais manso o nosso... Deixando a estrada, uma pequena trilha nos levaria até a entrada da caverna, mas a entrada estava com a porteira fechada com cadeado. Estávamos com autorização para entrar, mas o dono do local esqueceu o cadeado trancado. Assim, os cavalos ficaram ali e nós passamos as bicicletas por cima da porteira e seguimos pedalando os últimos quilômetros. Mais um ponto para as bicicletas!
Chegando à caverna fomos
recepcionados pelas barulhentas araras vermelhas. Agora entendo a
expressão ficar uma “arara”. Na boca da caverna o guia nos mostrou um
arranjo de pedras que seria, segundo contam os mais antigos, o fogão dos
“revoltosos”, grupo da coluna Prestes que teria passado por lá.
No dia seguinte, fomos até a Caverna Angélica, cerca de 25km pela estrada que vai para a cidade de São Domingos, mais ao norte. Para não ficar muito puxado o dia, resolvemos ir de ônibus e voltar de bicicleta. Valeu a viagem! Que cenas! Foi uma das situações mais hilárias que já vimos. O ônibus na verdade era um motorhome, onde morava um casal com duas crianças. Na falta de transporte público, por causa da ponte quebrada, eles improvisaram um modo de levar a população e ganhar algum dinheiro. Eram os “ípis” conforme nos explicaram os passageiros. Logo nos acomodamos nos bancos de madeira e o ônibus foi enchendo, não só de gente, mas de sacos de mantimentos, caixas e mais caixas.
O incrível era o bom humor de todos, mesmo naquela situação difícil. Mais adiante subiu uma vendedora, que tentava passar entre tudo isso com uma enorme bacia de bananas. Em algumas casas era necessário parar e esperar pelas pessoas. Numa destas, demorou bastante até que um senhor subiu no ônibus saudando:- Bom dia! Todo mundo gordo e forte? Algumas galinhas, presas em sacos plásticos, eram arrastadas debaixo do banco e das pernas dos outros, conforme o ônibus freava e arrancava, era uma risada só. Ao passarmos por uma ponte estreita e com cara não muito confiável, a comemoração foi geral, com gritos e palmas.
Descemos do ônibus e pegamos
uma estrada menor, onde pedalamos 4km cercados de paredões incrustados
de mandacarus e gameleiras. A boca da Caverna Angélica é de uma beleza
impactante, com um rio cristalino formando uma praia de areia branca e
uma exuberante mata ciliar. Foram duas horas e meia de percurso no
interior da caverna, mas uma vez lá dentro, perdemos totalmente a noção
do espaço e do tempo, distraídos observando as cortinas, canudos de
refresco e as maravilhosas e delicadas flores de aragonita.
Para descansar os olhos,
basta pousá-los numa das veredas que antecedem a serra, uma planície
verde e florida, interrompida por palmeiras de buriti. Afinal, onde passa um cavalo, passa uma bicicleta. Não foi bem assim, é claro. As estradas boiadeiras são estradinhas estreitas quase como uma trilha, utilizadas para levar o gado de uma fazenda para outra, com muita pedra, areão e mato fechado.
Lá ia ele na frente a
cavalo, e nós atrás de bicicleta, tentando acompanhá-lo, às vezes pelo
meio do pasto ou atravessando brejos. Como dizem na região: Valei-me meu
pai! Rapadura é doce mas não é mole não!
Dentro da caverna, andamos
até um salão onde as formações são tão delicadas que dá vontade de
prender a respiração, por dois motivos, um pela beleza e outra porque o
gás carbônico exalado por nós altera a deposição do calcário. Para conhecer as veredas, pedalamos alguns quilômetros até que o areão dominou a estrada.
Então escondemos as
bicicletas no cerrado e seguimos a pé, por mais uma hora. Finalmente
chegamos próximo às veredas. São áreas planas e com uma fileira de
buritis acompanhando os riachos que cruzam os campos de solo encharcado.
Parece até um jardim, principalmente em maio, época em que as flores
estão abertas. Toda a riqueza de frutos do cerrado e dos buritis atrai
um grande número de aves para a região. Aliás, não passamos um dia
sequer, durante toda a viagem, sem a companhia das araras, às vezes as
Vermelhas outras as Canindé (azuis e amarelas).
A
Caminho da Chapada
Mas acabaram deixando escapar que existia este atalho por terra, que estava muito ruim, porém, com paisagens muito bonitas. Não tivemos muita dúvida, afinal de contas tínhamos saído de casa para isso. Foi bem duro, apesar da baixa quilometragem que realizamos. As subidas eram muito íngremes fazendo com que muitas vezes tivéssemos que saltar e empurrar. Além disso, a estrada era coberta de pedras brancas, que refletiam bastante a luz do sol, ofuscando a vista, mesmo com óculos escuros. Cruzávamos rios várias vezes por dia, o que nos forçava a tirar toda bagagem e atravessar carregando as bicicletas.
Mas em compensação todos os rios eram de água cristalina e refrescante. O visual também era incrível, tínhamos a sensação de ser as primeiras pessoas a passarem ali depois de muito tempo. Tudo foi recompensante, sem falar na possibilidade de acampar no meio do cerrado sob o céu estrelado. Numa das noites tivemos a visita de uma onça, que rondou a barraca, rugiu alto nos botando medo e foi se embora no meio cerrado, sem se importar muito conosco. Não chegamos a vê-la, mas é claro que com o aquele rugido assustador pulamos para dentro da barraca e acabamos deixando a comida queimar lá no fogo.
De Teresina de Goiás
seguimos em direção ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, por um
caminho não usual: contornando o parque por trás, numa região pouco
explorada turisticamente. O caminho em si já foi um atrativo, com
paisagens fantásticas e muitas cachoeiras. A cidade de Cavalcante, por
exemplo, apesar de abrigar mais da metade da área do parque em seu
município, ainda está começando a despontar para o ecoturismo. Ver a lua nascer, por trás desse paredão de montanhas foi uma das coisas mais marcantes que já vi. E não é só natureza que tem por ali, a região ainda guarda um enorme tesouro cultural. Vivem lá, mais de 5 mil quilombolas. São os Kalunga, descendentes de escravos que vivem em comunidades, algumas ainda praticamente isoladas.
Tiramos um dia para conhecer
uma destas. Escolhemos a comunidade Engenho II por estar a menos de 30km
da cidade e por já estar organizada para receber turistas. Depois de uma
longa e deslumbrante subida de serra, chegamos à comunidade e percebemos
que, talvez por esta proximidade com a cidade ela já não era tão
autêntica. A arquitetura já tinha sido modificada, com vários telhados
de amianto no lugar de palha e os chefes comunitários estavam muito
acostumados com o “esquema turístico”. Mas não perdemos a viagem. A
poucos quilômetros dali, ainda dentro da comunidade, ficava a cachoeira
Sta. Bárbara, com uma água cristalina, de uma rara tonalidade
esverdeada.
Sabíamos pelo mapa que havia uma comunidade mais ou menos no meio desse percurso, mas não sei se pelo nosso cansaço acumulado, pelo sol, ou se porque paramos muitas vezes para apreciar a paisagem, não conseguimos chegar até lá antes do escurecer do primeiro dia. Mas isso não foi problema de forma nenhuma. Escolhemos um belo lugar no meio do cerrado e montamos nossa barraquinha para mais um camping selvagem. Acabamos tendo muita sorte, pois além de um céu coalhado de estrelas, ainda tivemos uma oportunidade rara, de ver o espetáculo de larvas luminescentes bicolores. Cada uma delas tinha duas pequenas luzes, uma verde e outra vermelha.
No começo, sem saber direito o que era aquilo, ficamos um bom tempo abismados com aquelas centenas de pontinhos luminosos se movendo no chão. As lanternas ficaram o tempo todo desligadas, não podíamos perder nenhum segundo desse show. Olhávamos para cima, as estrelas, olhávamos para baixo, às larvas luminescentes!!! Show de luzes na noite do cerrado... No dia seguinte, poucos quilômetros depois, passamos por duas comunidades, essas sim conservavam a aparência e a arquitetura antigas dos quilombos. As paredes das casas eram construídas com um tipo de tijolo grande e cru, sem qualquer revestimento. Os telhados eram de palha de buriti, a palmeira mais abundante na região. Fomos muito bem recebidos.
Parque Nacional Chapada dos Veadeiros
Nos passeios dentro do Parque Nacional é obrigatória a presença de um
guia (aliás, imposição bastante questionável, pois existem trilhas
fáceis e perfeitamente auto-guiáveis). Foi difícil conseguir um guia
para nos acompanhar e ainda assim nenhum deles topou trabalhar mais do
que meio período (!) Apesar dos avisos de que iríamos nos perder e que
os caminhos eram complicados, fizemos com facilidade todos os roteiros
que eram fora do parque, de maneira independente. Acordávamos cedo,
arrumávamos as “mulinhas” e caímos na estrada.
Dicas
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