Por Vitor Pereira - Jul / 97

PEDALANDO NOS CAMPOS DO SENHOR

Não fazia muita idéia de como era a República Tcheca quando meu amigo Stefan me convidou para pedalar até Praga. Sabia só que era um país ex-comunista, separado a pouco da Eslováquia e que sofria rápidas mudanças econômicas e sociais.

Stefan, que é alemão, já havia estado lá por duas vezes depois da abertura ao capitalismo, mas nunca viajando de bicicleta.

De Berlim, onde estávamos, até a fronteira ao norte daquele país, são aproximadamente seis horas de trem. Cruzamos a antiga Alemanha Oriental, onde pudemos notar diferenças nas cidades e pessoas do leste europeu. Segundo Stefan, as desigualdades culturais e sociais vêm sumindo aos poucos, desde a queda do Muro de Berlim em 1989.

Nós brasileiros, necessitamos de um visto no passaporte, que pode ser conseguido no Brasil ou em qualquer país europeu onde haja uma embaixada tcheca. No meu caso, foi providenciado em Berlim.  

Minha bicicleta era uma mountain bike de 18 marchas (Shimano SIS) bem simples, comprada por uma bagatela num supermercado. Apesar de ser pesada, era muito resistente e por isso resolvi apelidá-la de "Fusquinha".

A grana que eu tinha estava curtíssima e a idéia de viajar por um país, onde os preços eram quatro vezes mais baratos do que nos seus vizinhos ricos, me atraía ainda mais.

Começamos a pedalar em Schôna, primeira cidade tcheca, após cruzar numa balsa um rio caudaloso que a separa da fronteira com a Alemanha.

Seguindo a estrada ao lado do rio, chegaríamos a Decin. O percurso é lindo, cercado de florestas por todos os lados.

Além da natureza exuberante, me chamava a atenção o grande número de prostitutas e casas de massagens à beira da estrada. Elas esperam clientes, na maioria alemães, que desfrutam dos seus serviços, aproveitando a diferença cambial entre o Marco alemão e o Krone (moeda tcheca), bem menos valorizado.

Em Decin, tive a impressão de estar em um daqueles filmes poloneses ou russos, onde o cenário era completamente deserto. Prédios grandes e velhos, quase todos cinzentos e escuros e uma certa tristeza no ar. Não sei se por que era um domingo de chuva e frio, mas Decin mais parecia uma cidade fantasma.  

Mortos de fome, tratamos logo de procurar um restaurante antes do cair da noite.

Não tivemos muita escolha pois só um estava aberto e por sinal, o único lugar onde vimos gente. Ao entrar, parecíamos seres de outro planeta pois todos de repente pararam de falar e olharam para nós com curiosidade.

            - De onde seriam os dois forasteiros?

Decin não parecia receber turistas com freqüência e tivemos certa dificuldade para pedir os pratos.

Se para mim, a língua alemã já era impraticável, a tcheca então parecia impossível. Não podia ao menos diferenciar o que era comida do que era bebida.

Sorte que, como qualquer bom alemão, Stefan trouxera um livrinho prático que traduzia as principais frases de sobrevivência para a sua língua, nos quebrando um grande galho na viagem.

Pode-se comer muito bem e barato na República Tcheca. Um bom prato de carne, batatas e salada não sai por mais de três reais. A cerveja então, nem se fala, é deliciosa e custa menos de 50 centavos. Mais barata que a água!

Na verdade estávamos entrando na região da Bohemia, famosa pela invenção da loira gelada, hoje apreciada no mundo todo. São quilômetros e mais quilômetros de plantações de cevada. Por onde passávamos víamos a principal matéria prima da cerveja pelos campos a perder de vista.   

A "Praga" que nos encantou 

De Decin a Praga foram mais de cem quilômetros de campos, florestas temperadas e rios limpíssimos.

Na capital, ficamos hospedados na casa de antigos conhecidos do Stefan. A casa ficava em Podbaba, local místico, quase mágico. Bairro afastado do centro de Praga, onde as pessoas parecem ainda viver nos anos 60.

Logo também fiquei amigo do Wensla e da Ivana, donos da casa e seus três filhos pequenos, apesar de nos comunicarmos apenas por mímica e poucas palavras em inglês.

Podbaba reunia em quase todos os finais de tarde um grande número de pessoas. Todos amigos, que iam chegando com vinhos, cervejas, comidas e tudo o mais que você quiser imaginar. Sentados em uma mesa comprida, embaixo de uma grande parreira, ficavam até a madrugada conversando, cantando e curtindo os amigos, coisa difícil de se ver hoje nas grandes cidades.             

Praga é uma das mais lindas cidades que eu já conheci. Seus palácios, castelos, catedrais e pontes traduzem todo o clima da Idade Média.

Tempo dos Senhores Feudais e dos reinos como o de Audsburgo, que dominou a região por gerações.

A Inquisição, a Peste Negra. Tudo isso e muito mais pode ser visto de perto em Praga, dando a você uma injeção de cultura. Tudo é História, dos bares até os lampiões das ruas. É uma cidade que vale a pena ser visitada.

Ficamos uma semana e quando partimos, sentimos a vontade de voltar uma outra vez.  

 

Pedalamos também para cidades próximas a Praga, visitando belezas naturais como lagos de contos de fadas ou cavernas gigantescas. As estradas, todas secundárias e sem movimento, cruzavam vilarejos esquecidos no tempo.

Durante a nossa jornada, qualquer lugar era um bom lugar para passar a noite. Levamos uma barraca e sacos de dormir e além de acampar, acabamos dormindo em vários lugares diferentes. Casas de camponeses, celeiros abandonados e até pequenas pousadas que custavam quase nada se comparadas aos preços do Brasil.  

Ao longo do caminho, árvores repletas de frutas como cerejas, maçãs, framboesas e a exótica "blue berry" (pequenina fruta azul e muito saborosa). Claro que aproveitávamos sempre estes locais para uma paradinha, repor as energias e encher a barriga.

Da capital, seguimos para o sul, em direção às cidades medievais de Tabur, Trebon e Cesky Krumlov. Foram mais cinco dias de pedalada, com um total de 600 quilômetros percorridos até a fronteira com a Áustria.

Não vamos mais esquecer o que vimos nesta parte da Europa. Seus castelos, palácios, igrejas e cidades medievais. Sua natureza rica de florestas, rios, lagos e campos.

Campos do Senhor Feudal, que um dia voltaremos a atravessar!

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