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ROBERTO ROCHA NO PEDAL
Tibete - Lhasa,
07 de junho de 2002
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Na subida de um dos passos próximo a Dequin
Cheguei a Lhasa no dia 1 de Junho,
após 24 dias de viagem pelo leste do Tibete, vindo da província de Yunnan, na China.
O trajeto está no mapa abaixo. Foram 1400km de Deqin (a ultima cidade na China antes da fronteira com o Tibete)
até Lhasa.
Porque proibida? Bem, desde 1959, quando a China invadiu o Tibete e forçou o Dalai Lama a se exilar na
Índia, a região esta "restrita" para turismo. Restrita significa que pra visitar o Tibete
você tem que comprar, do governo chinês, uma "permissão pra visitar o Tibete" (a famosa TTB), que
é mais ou menos uma propina, e conseguir uma permissão de viagem por áreas restritas, que
só pode ser obtida através de uma agencia de viagem, que vai te vender um
"pacotao" com 4X4, motorista, etc. A palhaçada toda sai pela bagatela de US$250, fora hotel e comida que
é por sua conta, e significa que você não pode viajar independente e está restrito ao que eles querem que
você veja! Eu gastei, ao todo, US$90 em 24 dias e me sinto realizado em não ter dado um centavo ao governo
chinês!!!
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A descida pro vale do Mekong
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Antes da descida pro vale do Mekong |
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Hora do rush no
Tibete
Então, o jeito é ir ilegal! E ilegal significa evitar cidades maiores - a
polícia te pega nos hotéis - e os postos de polícia (checkpoints).
Portanto, você precisa saber onde
estão as cidades "perigosas" e os checkpoints e passar por eles às 5h da manhã, quando todos
estão dormindo.
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Atravessando o Mekong
Tomados os devidos cuidados, a viagem foi fantástica, com incríveis vales, rios de
água ultracristalina (e friiiia) pequenas vilas e monastérios e o visual belíssimo
das montanhas cobertas de neve. Maio é o inicío da primavera no Tibete e o tempo em geral
é estável, embora tenha cruzado dois passos acima de 5.000m sob um tempo horrível, um com chuva fina e gelada e um
terrível vento contra e o outro sob muita neve e um frio de gelar os ossos. Estava
tão frio que tive que parar numa acampamento de manutenção da estrada pra descongelar
mãos e pés ao redor de uma lareira.
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Trecho de floresta tropical num vale a uns 600 km de Lhasa
A estrada vai, em media, entre 3.000 e 3.500m de altitude e menos da metade é asfaltada. Cruzei ao todo 8 passos acima de 4.000m - 3 acima de 5.000m - a maioria deles muito duro mas com um visual
belíssimo, quando o tempo estava bom.
Apenas três vales vão abaixo de 3.000m: o vale do Mekong e do Yangtzi - quentes e
desérticos - e um de floresta tropical "braba" - em pleno Tibete!!!! - com mutucas, borrachudos
-não dava nem pra parar pra fotos sem ser devorado-, sanguessugas e inúmeros deslizamentos de encosta.
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Cruzando um passo de 5.000m de altitude
Iniciei a viagem com dois espanhóis
mas acabamos nos desencontrando no quinto dia e fiz o resto sozinho. Bem, também
teve o lado ruim! Os cachorros tibetanos, por exemplo, que são bem assustadores.
Numa noite de lua cheia, fui acampar
próximo a uma vila e, como já estava escuro, acabei não pedindo aos moradores pra ali pernoitar. Montando a tenda, levei um susto com o
súbito e aterrorizador latido de um cachorro enorme e, quando me virei pra enfrentar o bicho, vi que ele estava na coleira, com um sujeito armado com uma enorme e brilhante faca querendo saber o que eu estava fazendo ali. Outros moradores me atiraram pedras... Levou um certo tempo pra coisa se acalmar e eu
saí, felizmente ileso, pra procurar outro lugar!
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Casa onde pernoitei uma noite de neve
A alimentação também foi meio
precária, já que não há quase nada de legumes e frutas. também fui "roubado" numa vila, onde dormi na casa de uns tibetanos (me levaram 3 pares de meia e 2 tubos de protetor solar - muito importante pois o sol do Tibete castiga, pelo ar ser mais rarefeito. Outro
"pé-no-s..." foram os intermináveis comboios do exército chinês, que levantavam um poeira danada.
Bem, no final, todos os sustos, as pedaladas de madrugada, o frio, a alimentação
precária, etc. não foram nada comparados à paisagem, ao povo e à cultura tibetana,
aos peregrinos caminhando rumo à Lhasa - cidade sagrada - e se prostrando a cada 4 ou 5 passos, os idosos girando as "praying wheels"
e entoando o mantra "Oh-mani-pemerrum"... Tudo valeu a pena!!!
Daqui a alguns dias, sigo rumo ao Nepal - a estrada com o maior downhill do mundo: 4000m de baixada em 150km.
São 1000km ate Katmandu - a capital do Nepal - e creio que serão uns 20 dias de viagem.
Até lá!!!
É
isso aí! Paz, amor e felicidade pra todos
Roberto
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Mapa do tibete na Asia, com a rota
que percorri desde Bangkok - 28 de fevereiro até 1 de junho de 2002
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O trecho Dali (na
província de Yunnan) até Lhasa, cruzando o leste do Tibete
Obs: Infelizmente, estas são as ultimas fotos que estou mandando pois ontem, numa visita a um monastério próximo a Lhasa, perdi minha câmera! C'est la
vie!
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