por Rodrigo Telles Fev/2001
Serra da Capivara (PI) - História e Beleza
A maior dificuldade antes de
sair de viagem de bicicleta não foi nem a viagem de ônibus (SP-PI) e nem a
falta de informações. O pior foi convencer os parentes e amigos que não estávamos
ficando loucos. Piauí??? Fazer o que no sertão do Piauí?!! (Mas sempre depois
de ver as fotos eles ficam com vontade de ir também).
| A jornada começou em São Raimundo Nonato, que é a cidade base para se visitar o Parque Nacional da Serra da Capivara. Dentre todos os guias da cidade nenhum deles quis nos acompanhar de bicicleta. Acho que ficaram um pouco assustados com as bagagens e com os capacetes. Nem a Rose, chefe do IBAMA, conseguiu convencê-los de que nós não éramos atletas, só turistas. Só fomos arranjar um, já quase na entrada do parque, no vilarejo onde acampamos. |
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Passamos bastante tempo observando as formas imponentes do relevo da serra que logo iríamos conhecer. A massa de pedra se ergue do chão até uma altura incrível, numa vertical quase instantânea. Nos vales, entre estes paredões, cresce uma vegetação alta que não sei se pode ser chamada de mata, mas que guarda algumas estradinhas e trilhas muito aconchegantes. Coisas que não esperávamos encontrar no sertão do Piauí. |
Pedalávamos até onde dava, depois seguíamos a pé pelas trilhas mais estreitas e encostas de pedra.
| As trilhas sempre levam a alguma toca de Pintura Rupestre. Algumas delas
passam pelas beiradas dos cânions, deixando ver o tapete de verde que forra as
grandes rachaduras na rocha lá em baixo. |
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As pinturas rupestres são realmente intrigantes. Algumas têm já 10 mil anos! Há 10 mil anos atrás moraram homens barbudos e cabeludos no Piauí!
| Eles viviam em tocas, isto é,
pequenas reentrâncias nas paredes de pedra. É estranha a sensação de sentar
e fazer um lanchinho no mesmo lugar onde dormiam os primeiros habitantes do
continente. |
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Em dois dias conhecemos uma
boa amostra das tocas do parque (apesar de termos visto uma pequena porcentagem
delas). Partimos, então, para uma travessia pela caatinga. Qual seria a graça
de ir ao Sertão e não pedalar nessa vegetação que é única no mundo? |
Dormimos cedo e acordamos
às 4:00h da manhã. É bom sair cedo porque ainda está friozinho e o sol
demora a subir. No primeiro quilômetro correu tudo bem. No segundo, surgiu um
areão respeitável e no terceiro, para completar, surgiram as mutucas. Mutucas
são moscas grandes que chupam sangue. Falando assim até parece perigoso, mas
basta vestir umas roupas que elas sossegam. O problema era o número. Sem
exagero, umas 150 mutucas pegando o vácuo da bicicleta! 20km/h e elas lá, nos
acompanhando. Foi a primeira vez que eu pude ver o formato do vácuo que a
bicicleta deixa. As que saiam do vácuo ficavam para trás. Mas logo chegavam
outras. Com o tempo nos acostumamos e aquela nuvem já parecia uma parte da
bicicleta.
Visitamos mais alguns sitos arqueológicos e no fim da tarde fomos ver o espetáculo do pouso das andorinhas. Com as máquinas fotográficas em punho, ficamos esperando alertas. Meia hora depois... e nada. De repente um tiro! Zzzzup! Como um som de uma flecha passando. Mas não vimos nada. Será a andorinha? Logo em seguida, mais três daqueles sons, e pudemos ver rapidamente como que três vultos descendo do céu em velocidades absurdamente altas.
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Eles se escondiam em fendas da muralha de pedra que ficava no cânion bem abaixo de nós. O grupo de andorinhas estava nos sobrevoando bem alto e de vez em quando, algumas resolviam descer. Depois ficamos sabendo que elas chegam a cerca de 300km/h nesta descida! Parece que desta forma os predadores não conseguem descobrir onde são as tocas. E nós, com caras de bobos guardamos as máquinas fotográficas e ficamos apreciando o por do sol. |
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