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Volta ao Mundo |
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46° Diário - março de
2005
Olá amigos,
A demora para escrever este último capítulo talvez tenha sido uma inútil tentativa de prolongar essa grande volta por mais alguns meses. E a volta realmente não existe. Estamos sempre partindo...
Saída de Caraíva Dentro do Parque está localizada a reserva indígena dos Pataxós e foi lá o primeiro local avistado pelos portugueses, em 21 de abril de 1500. Nesta época, o litoral baiano era ocupado por três nações indígenas do grupo Tupi: os Tupinambás, os Tupiniquins e os Aimorés.
Foi exatamente ali que iniciou, de uma forma definitiva, a transformação da história do nosso país. Desde então muita bandidagem e histórias mal contadas chegaram às terras dos Tupis. O antropólogo Darcy Ribeiro calcula que mais da metade da população aborígene da América, Austrália e ilhas oceânicas morreu logo no primeiro contato com os homens brancos. A estrutura do “Brasil Dependente”, criada pelos portugueses, sofreu várias mutações mas nunca desapareceu. Hoje o país é escravo de uma dívida impagável que o conduz à eterna submissão. A pequena esperança de transformação reside nos governantes, que atualmente vivem na cidade encantada de Brasília, perto do poder e longe do povo, se afundando num mar de lama e corrupção.
A economia do país, assim como em quase todos os países do terceiro mundo, é dependente das grandes corporações que sufocam a auto-suficiência brasileira. A independência nunca existiu. Se os governantes são incapazes de alcançá-la, é o povo que precisa se mover. Através da consciência de cada um, ajudando o próximo para levantar o grupo. O governo somos nós, todos e únicos com capacidade de mudança. É preciso e ducar, politizar e parar de esperar. Do histórico parque, segui pedalando pelo vale do Rio Jequitinhonha. Depois de tantos contrastes pelo mundo comecei a ver novamente o local de onde parti, as montanhas de Minas. Aos poucos fui reconhecendo minha própria cultura, o povo, as comidas, os transportes, etc. Mas a chegada teve uma dimensão muito diferente. Já não era o mesmo que pedalava. A transformação é o status quo do Planeta. Enquanto fiz o giro para um lado, a rotação da Terra nos girou mais de mil vezes para o outro. E tudo mudou de uma forma sutil, como quem abre o terceiro olho para ver, na simplicidade das coisas, o próprio mundo.
Vale do Jequitinhonha Para sair da vila existiam apenas as opções de moto, a cavalo ou de bicicleta. Resolvi ir pedalando e, passando mal, viajei 20 quilômetros. No outro dia peguei o ônibus da vila para finalmente chegar em Almenara, único hospital da região.
Quando cheguei, já estava quase curado pois, por via das dúvidas, tomei um vermífugo e, por sorte, acertei o problema. Incrível imaginar que, apesar de tão perto, caso eu precisasse, seriam necessários no mínimo três dias para chegar em casa! Apesar da pobreza, ninguém tentou me roubar. Mendigos e garotos de rua apenas pediam comida. Sempre conversei com eles e acredito que isso é muito importante. De uma forma diferente, eu também tive de pedir muito nessa viagem e aprendi que o pior “não” é a desconsideração.
"O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão". A ferrugem do litoral não perdoou a bike. A corrente virou uma pedra. A única sobressalente que encontrei no caminho não funcionou e acabou quebrando o câmbio traseiro. Fiz uns improvisos e segui cheio de gambiarras. Continuei subindo e dividindo a estrada com os vaqueiros e caminhões que passam recolhendo o leite de vaca das fazendas. Segui aplicando o golpe da garrafinha d´água. Pelas estradas de terra sempre tem uma casa que lança o cheiro do almoço no ar.
Quando eu sentia o cheiro, bebia o resto de água, chegava na porta e pedia para encher a garrafinha. Era muito difícil a pessoa entregar a água e não perguntar alguma coisa. Daquele papo sempre surgiu o assunto de comida e hospedagem. Na resposta eu explicava que as pessoas me oferecem comida, etc e sempre, logo depois da resposta, o dono da casa me convida para comer. É preciso cara de pau. Concordo. Mas acho que no final é bom para todos. Fome e cooperação são instintos. Obrigado a todas casas que cooperaram! Infelizmente continuei vendo muita poluição nos rios. Foi assim em quase todos os países. Muito triste isso. O ser humano tem sido o animal que mais destrói o Planeta. O ser racional que faz muitas coisas irracionais. O caminho está errado e a velocidade é alta. A sociedade precisa, sem ganância, de uma direção pacífica e consciente. Vi nos olhos de todos que encontrei no caminho a vontade e consciência da necessidade de mudança mas, infelizmente, a representação dessa vontade, através dos nossos governantes, não reflete essa luz. Nem sequer tivemos a competência de manter um rio limpo e já pensamos em brincar de Deus e modificar seus percursos.
Diamantina - Estrada Real
“A espada e a cruz marchavam juntas na conquista e na espoliação colonial”
A cidade é o ponto inicial da Estrada Real, caminho por onde escoou muito do ouro e pedras preciosas roubados para enfeitar as madames, catedrais e palácios europeus. Hoje o governo está transformando o caminho em uma rota turística. A idéia é boa e o potencial existe. Mas o Brasil é um fracasso no turismo mundial e possui míseros 0,6 % desse mercado (2001 World Tourism Organization). O problema não está na falta de belezas naturais, muito pelo contrário, mas na terrível fama de país violento que, ultimamente, faz com que grande parte dos turistas em busca de países tropicais, prefiram o tranqüilo Sudeste Asiático que a Latino América. Muito diferente da violência das grandes cidades, algumas regiões do Brasil possuem uma paz suíça. É o caso dessas pequenas cidades mineiras.
Em Diamantina me encontrei com os amigos Rodrigo e Eliana e seguimos pedalando pelas simpáticas vilas de Serro e Milho Verde, na serra do Cipó. Um paraíso entre as montanhas, cachoeiras e a simpatia dos habitantes. O ser humano tem alma boa. Por sorte ou anjo forte, todos que encontrei, a seus modos, quiseram me ajudar. Aqui no sertão de Minas era só Deus te acompanhe, Deus te cuide, Deus te abençoa, FicumDeus... Cafezin, Bolin, Queijin, Cachacin.
"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. " De Milho Verde saí da Estrada Real para fazer os últimos quilômetros da viagem. Esse trecho foi como o “partir pro abraço” sempre tomando cuidado para não levar o tombo do descuido final. No penúltimo dia, do alto da serra, pude ver no horizonte o pequeno ponto onde tudo começou.
Cordisburgo No último dia eu parecia o Forrest Gump, a cada quilômetro que pedalava apareciam grupos de ciclistas que se uniam ao grupo para chegarmos juntos em Cordisburgo. Pedalei, pedalei e cheguei no mesmo lugar... no pé da casa de Guimarães Rosa, ressuscitado por dezenas de faixas espalhadas por toda cidade. Além das dezenas de bicicletas que me acompanharam, tive também a homenagem do Grupo Contadores de Estórias Miguilim, músicas, Hino Nacional e tudo mais. Muito obrigado!!
"O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia." Minha adaptação para a vida sedentária está um fracasso. Em breve pretendo viajar novamente com uma exposição itinerante visitando as escolas do Brasil e aproveitando para conhecer melhor nosso imenso país.
Antes de começar, foi preciso acreditar que daria certo. E deu. É preciso sonhar, realizar e viver... ser feliz. A felicidade é o quase nada essencial. Espero que vocês também tenham gostado da aventura e do projeto. “Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira – mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum.” Monteiro Lobato
Agradecimentos PATROCÍNIO: *Os Textos completos você encontra no site:
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