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Volta ao Mundo |
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43° Diário - novembro de 2004
Olá amigos, O percurso no Brasil será de aproximadamente 3 meses. De Recife irei para Maceió, Aracaju e Salvador (ano novo), atravessarei a fronteira Bahia-Minas, descerei até encontrar a estrada real e subirei por Tiradentes e Ouro Preto (carnaval) até chegar em Cordisburgo (meados de fevereiro). Mas, como sempre, tudo pode mudar.
Planejei, planejei e mais uma vez modifiquei tudo. Que bom ser livre! Imaginei mil peripécias pela África e América Central antes do retorno mas percebi que, de alguma forma, estava tentando fazer todas as viagens da minha vida de uma só vez. Desconsiderei a energia cíclica que existe em todos nós e a necessidade de concluir etapas para renovar as baterias. “A única coisa certa do planejamento é que as coisas nunca ocorrem como foram planejadas.”
Segui pedalando pelo litoral até Dar es Salaam. A estrada na Tanzânia é de terra, possui poucos carros e muitas pessoas caminhando ou pedalando. As vilas do percurso são feitas de casas de barro e palha e todos vestem as roupas das tribos com muitas cores. Poucas vilas possuem água encanada ou energia. As pessoas são lindas mas, quando perguntei se poderia tirar a foto de um grupo, uma mulher saiu correndo atrás de mim com um porrete. Tive um certo desconforto por ser o único branco. Várias vezes cumprimentei as pessoas e, ao invés de responderem, ficavam me olhando com uma cara feia. Tentaram me assaltar mais algumas vezes mas felizmente não levaram nada. Cheguei a tomar a decisão estúpida de comprar uma faca de meio metro de comprimento e pedalar com ela na cintura. Essa foi mais uma razão para minha volta, afinal meu objetivo, além de pedalar e educar, é também sobreviver.
A passagem por essa região da África será muito interessante para entender melhor de onde viemos os brasileiros. Estima-se que entre 3 e 4 milhões de africanos foram para o Brasil entre os séculos XVI e XVII e hoje 46% de toda população é de descendentes africanos (Censo 2000-IBGE). Esse número corresponde à segunda maior população negra no mundo, atrás somente da Nigéria. Apesar da situação social brasileira ser melhor que a africana, os negros que vivem no Brasil ainda sofrem muito com os “resquícios da escravidão”. Hoje, no Brasil, a média do salário recebido pelos brancos é duas vezes e meia a do recebido pelos negros e apenas 2% dos negros possuem educação universitária, um percentual cinco vezes menor que o dos brancos. O resultado da discriminação é que 69% da população pobre é negra (fonte: The New Internationalist). A situação é ruim mas existe uma esperança de melhora. Hoje o Brasil conta com leis fortes contra discriminação racial e estuda estratégias para aumentar o ingresso de negros na universidade. Uma mudança que logicamente tomará tempo mas parece estar, pelo menos, começando. PATROCÍNIO:
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