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Por Maurício de Sousa jan/2003 TRAVESSIA
CHILE - ARGENTINA
Quando voltamos à São Paulo, dentre os muitos comentários que nos fizeram sobre a viagem, um foi mais engraçado: "Ah... vocês estavam treinados..". Pois é, não, não estávamos treinados, e esta foi a nossa primeira cicloviagem... Consideramos que isso serve para provar que o cicloturismo é sim uma maneira segura e diferente de viajar. Sabíamos que o que íamos encontra pela frente não seria fácil, mas resolvemos ir mesmo assim, afinal, onde fica a aventura?
Começamos a nos preparar cerca de quatro meses antes, pela montagem das bicicletas. Montei uma bike
para mim comprando peças pela internet. Acho que nesse ponto a Viviane ainda não estava totalmente convencida da viagem, mas com o passar do tempo a bike da Viviane foi totalmente reformada, colocamos suspensão, pintura nova, um trato nos freios e câmbio e acho que meu detalhismo na organização acabou convencendo-a. O nosso agradecimento à todos eles! Elaboramos, a partir destas informações e da nossa experiência, listagens para montar os kits de ferramentas, peças sobressalentes para as bikes, o "kit gambiarra", o de primeiros socorros, roupas, alimentação, artigos para acampamento.
Quanto à preparação física, eu pedalava e a Viviane treinava na academia.
Com as passagens de ônibus compradas pela internet em mãos e duas malas enormes, enfrentamos um terminal de ônibus lotado e 15 horas de viagem rumo ao sul do Chile, na região dos lagos, mais especificamente até a cidade de Puerto Montt.
Durante a viagem encontramos ótimas hospedagens, mas a de Puerto Montt foi inusitada, principalmente por causa da proprietária, a Sra Victoria, que nos abordou "sutilmente" no Terminal de ônibus, não menos insistente que qualquer vendedor ambulante de São Paulo. Descobrimos na sua cozinha diversos cartazes com assinaturas de gente de todo o mundo, além de um fogão a lenha providencial para o friozinho que fazia. Durante um passeio pela cidade fomos ao correio enviar alguns postais e encontramos cinco ciclistas alemães, que estavam vindo de Ushuaia em direção à Santiago, e iam ficar alguns dias na cidade. Num Inglês tupiniquin trocamos algumas informações.
No início não foi nada fácil a adaptação à bicicleta com o peso dos alforjes. Mais difícil ainda dominar a bicicleta num terreno como o ripio. Cinqüenta quilômetros depois - eu com os dois alforjes na minha bicicleta, e a Viviane rendendo um pouco mais na pedalada - chegamos a La Arena. Cruzamos o estuário Reloncavi de balsa, com direito a ver leões marinhos e montamos acampamento em Puelche. Durante a travessia do estuário nos informaram que a estrada que liga Puelche à Puelo (nosso próximo trecho de pedalada) estava interditada pois havia queda de barreiras por causa das chuvas. "De bicicleta vocês passam" disse o dono da lanchonete onde estávamos acampados. Lá fomos nós... contamos nove barreiras. Passamos por todas sem problemas, e por causa da estrada interditada havia pouco movimento. A estrada era nova e ainda não estava "assentada", com muitas pedras soltas. Foi quando a Viviane entrou desatenta numa curva em declive, perdeu o controle e caiu. Ganhou dois rasgos perto do cotovelo direito e um joelho ralado.
Curativo feito, continuamos a pedalar. Paramos em uma casa para perguntar se faltava muito para Puelo. Responderam que ainda faltavam cerca de 10 Km e a dona da casa, vendo o curativo no braço da Viviane ofereceu ajuda, chamando uma picape para nos levar até um posto de saúde em Puelo.
Acabamos montando acampamento no quintal da casa da Laura, paramédica que estava de plantão e que nos atendeu. Café brasileiro com "galletitas" recém saídas do forno, música regional, conversa ao pé do fogão à lenha... Foi uma noite muito agradável. Decidimos cumprir o nosso roteiro e chegar no dia seguinte à Ralún. Porém fomos de ônibus, pois o braço da Viviane ainda estava inchado e dolorido.
Quase chegando em La Ensenada encontramos dois portugueses que estavam indo já naquele dia à Bariloche, também fazer o roteiro que cruza os lagos de catamarã. Estavam bem contentes com a viagem e seguiam com as bikes bem mais leves que nós, pois não estavam levando comida nem material para camping.
Há uma pequena agência de viagens, que oferece várias opções de passeios na região, desde rafting no rio Petrohué até a escalada ao Vulcão Osorno, com aluguel de equipo, transporte, lanche. Só não fizemos porque ia doer no coração deixar U$ 180,00 por pessoa... Como nossa travessia de barco saía de Petrohué, seguimos para lá depois de pernoitar numa hospedagem (afinal ninguém é de ferro, é sempre bom um banho quente e cama!).
O lugar é muito bonito, também com vista para o Osorno, porém com muito vento e os famosos Tábanos, mosquitos que parecem as nossas mutucas, só que um pouco maiores. Nosso primeiro dia do ano foi de descanso, aproveitamos para lavar roupa e arrumar os alforjes. Chegaram duas brasileiras que estavam fazendo trekking e também vinham de Puerto Montt, onde também ficaram hospedadas na casa da Sra. Victória.
De Petrohué à Peulla, são 1h30 de balsa, com vista para os Vulcões Osorno, Pontiagudo e para o Tronador. Seguindo viagem em direção à Bariloche passamos pela Imigração, por volta das 15h00, e sem condições de chegar ao outro lago no mesmo dia acampamos no posto do exército chileno (Carabineiros). Em Puerto Frias passamos pela Imigração e pela Aduana Argentina, onde nos fez falta a nota fiscal das bicicletas. Cruzamos o Lago Frias, com impressionantes paredões de pedra surgindo das margens. Mais 3 km de pedal até Puerto Blest, no qual pegamos a última balsa. Cruzamos o Lago Nahuel Huapi, 1hora e 40 com uma vista linda. O ponto final do Cruce de Lagos é Puerto Panuelo, próximo ao famoso Hotel Llao Llao, cartão postal do local.
Já era início da noite quando encontramos um telefone público e depois de diversos dias sem falar com a família, ligamos para casa e aproveitamos para comer uma pizza. Bom, faltava realmente muito pouco para chegarmos em Bariloche, só 29 quilômetros bem asfaltados. Porém era tarde (22h) e ventava muito, resolvemos procurar um camping. Nos indicaram um albergue e pedalamos um pouco durante a noite, com as headlamps acesas e a atenção redobrada com os carros.
Por indicação do dono do albergue, no outro dia, fomos (a pé) até o Cerro Lopez. Com fácil acesso até a base - a estrada é asfaltada, com bastante movimento e com alguma sorte se consegue carona na ida e na volta. O Cerro Lopez tem 2076 m de altitude e mais ou menos a 1600 m há um refúgio. A caminhada até o refúgio leva cerca de 3 horas por trilha, mas para quem tem um 4 x 4 há uma estrada de terra que chega até bem próximo do refúgio. Do alto é possível avistar vários lagos, a cidade de Bariloche e um grande trecho da cordilheira. A escalada até o cume levaria mais uma hora e meia, porém o tempo começou a virar e resolvemos não subir.
Seguimos viagem no dia seguinte para Bariloche. Este caminho, entre Puerto Pañuelo e Bariloche tem muitos carros e ônibus. Também há muitos restaurantes que servem Parrilla, talvez por este motivo seja tão movimentado. Encontramos muitos ciclistas e também cicloturistas na estrada. Um deles, Luiz, foi muito simpático e nos ajudou a encontrar um albergue na cidade.
No centro da cidade encontra-se o Clube Andino Bariloche, de onde saem todos os finais de semana micro ônibus e vans que levam turistas até o setor Pampa Linda do Parque Nacional Nahuel Huapi, onde se encontra o Cerro Tronador. Fizemos este passeio em um só dia, mas há opção de acampar em Pampa Linda ou no camping Los Rápidos que fica na estrada de acesso, uns 20 km antes. Em Pampa Linda é obrigatório passar pelos Guarda Parques informando qual seu destino e tempo de permanência no local. Conhecemos o Ventisquero Negro, algumas cachoeiras e a Base do Cerro Tronador com direito à visão de uma avalanche.
Uma noite no albergue do Argentina Hosteling Club e no dia seguinte rumo ao Aeroporto Ezeiza. O responsável pelo Albergue, conseguiu uma picape para nos transportar juntamente com as enormes malas ao Aeroporto, assim não precisamos pagar dois táxis como havíamos feito no dia anterior. Mais informações no
site:
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