Por Manuel R. Terra (agosto/2007)

Expedição Qhapaq-Ñan
Etapa - Andes 2 - Sajama a Salta


montando a barraca no Salar de Coipasa

O projeto Qhapaq-Ñan é a uma expedição de quatro viagens que juntas unem o trajeto entre Quito (Equador) e Santiago (Chile), percorrendo de forma aproximada o antigo Caminho Inca ou Qhapaq-Ñan, também conhecido como o caminho da sabedoria.

Esta rede de caminhos unia o antigo império com uma vasta rede de ramificações e foi recentemente declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO.

A idéia surgiu após a primeira viagem (Andes1) que resultou na descoberta do potencial imenso da região para o cicloturismo e também o valor deste caminho misterioso e gratificante.


areia no caminho

Desta vez, realizei sozinho o segundo trecho: Sajama / Salta, percorrendo o Altiplano Sul na Bolívia e o Norte da Argentina, com um total de 1350 km pedalados em 17 etapas.

Pelo fato de viajar só, em pleno inverno, a atenção aos pequenos detalhes e para o equipamento foi redobrada. Levei em conta, principalmente, as baixíssimas temperaturas que poderiam ser inferiores aos -20ºC e a necessidade de se portar água e comida para atravessar vastas regiões desérticas, com a devida autonomia.

Além disso, levei comigo um pneu sobressalente, antibióticos, um GPS e demais enceres próprios do cicloturismo de aventura, como o saco de dormir, barraca, ferramentas, etc.


Vulcão Sajama

No dia 6 de agosto de 2007 parti de Sajama, uma pequena vila situada na fronteira com o Chile, aos pés do vulcão homônimo que é o mais alto do país com 6548m de altitude. Cheguei lá de ônibus, após aclimatização em La Paz, e permaneci dois dias mais, preparando minha bicicleta e meu organismo para pedalar numa altitude media de 4000m.

Comecei a minha aventura rumo ao salar de Coipasa por um terreno extraordinariamente difícil, principalmente pela areia nos caminhos. Parei nas vilas de Macaya e Sabaya para pernoitar e logo depois seguir caminho para os salares. Macaya é bem menor que Sabaya e conta com um quartel do exército especializado em andinismo.


Sabaya em festa

Ali recebi apoio por parte do comandante que me convidou a jantar a ração dos soldados. Já Sabaya é maior e conta com duas ou três pousadas além de postos telefônicos. Quando cheguei, as duas localidades estavam em festa e a maioria dos seus moradores embriagados. Após bom descanso parti para o Salar de Coipasa, onde encontrei dificuldade para encontrar o caminho. Uma vez no salar, na beirada, a camada de sal é relativamente fina e úmida, o que não facilitou muito esse trecho, pois os pneus afundavam 3 centímetros no piso.

À medida que avançava, porém, fui adquirindo velocidade, pois o piso se torna mais compacto. Montei acampamento com facilidade após certa dificuldade de orientação, pois o meu GPS dava leituras errôneas (já tinham me avisado que nos salares isso seria uma possibilidade).


auto-retrato no Salar de Uyuni

Resolvi, portanto, apontar meu rumo para certas montanhas no horizonte, como indicado por pessoas que encontrei nas imediações. No dia seguinte dirigi-me a cidade de Llica onde encontrei pousada e vendinhas onde me abasteci com suprimentos, além de telefone e internet (esta bastante precária, por ser via satélite).

Após pernoite me preparei para entrar no famoso salar de Uyuni, atravessando-o (160 km) sem grandes dificuldades, a não ser a impossibilidade de montar a minha barraca devido à dureza do sal cristalizado do solo, o que me obrigou a dormir a céu aberto a pelo menos 15 graus negativos.


orientação por GPS no Salar de Uyuni

Estava no meio daquele mar morto, numa imensidão fantástica, com a visão do vulcão Tunupa ao norte. Após acampar nos salares, pedalei até a cidade de Uyuni onde descansei por duas noites aproveitando a boa infra-estrutura turística.

A partir de Uyuni continuei por estradas de terra sempre difíceis e repletas de costelas rumo ao Sul passando por Atocha para pernoitar. Atravessei uma serra imensa e dormi no topo de uma montanha, a 4200m, nas minas Tolamayu, onde os mineiros acostumados a receber viajantes sem refúgio me cederam um pequeno cômodo empoeirado.


Menina de Tolamayu

Segui caminho e parei uma vez mais para descansar na aprazível cidade de Tupiza. Ali, como em Uyuni, lavei minha roupa, desfrutei de longas chuveiradas quentes e boas refeições.

Neste ponto já estava bastante integrado no meu percurso solitário pelo Altiplano Sul, assim como tinha me acostumado a dureza do terreno, que não era pouca. Em Tupiza tive a oportunidade de presenciar a festa nacional do dia da bandeira com direito a desfile, comidas e refrescos populares em pequenos quiosques improvisados na rua.

Dali continuei até Villazon, conhecida como a “Tijuana Boliviana” pelo fato de ficar exatamente na fronteira com a Argentina e ser um ponto de contrabando.


Acampamento no Salar de Uyuni

Desde Villazon visitei a cidade de La Quiaca na Argentina. Este passeio foi feito a pé, pois é necessário apenas atravessar a ponte que divide as duas cidades. A partir de La Quiaca me encontrei com o asfalto argentino, depois de 723 km pedalados por caminhos de terra e salares na Bolívia.

Na Argentina atravessei parte da Puna da província de Jujuy e a Quebrada de Humahuaca - Patrimônio da Humanidade - passando pelas cidades históricas de Humahuaca (onde pernoitei com boa infra-estrutura), Tilcara, Maymará onde também parei para dormir e Pumamarca.


minha bicicleta no Salar de Uyuni

Em Purmamarca iniciei a subida da “Cuesta de Lipan”, uma subida inesquecível de 37 km com 2000m de desnível, onde encontrei ventos de força avassaladora. Acampei no topo, a 4.200m de altitude para no dia seguinte descer até o terceiro salar da minha travessia: as Salinas Grandes.

Na beirada das salinas acampei em plena Puna e no dia seguinte me dirigi à vila de San Antonio de los Cobres. A partir deste salar voltei aos difíceis caminhos de cascalho e areia que me eram tão familiares.

Depois de um dia duro, já dentro da província de Salta cheguei à vila mineira de San Antonio. Bastante cansado e depois de 2 dias seguidos acampado e comendo enlatados esperava encontrar mais infra-estrutura, mas a cidade mineira não tinha muito a oferecer, além do básico.


atravessando o Salar de Uyuni

Na manhã seguinte iniciei tarde a etapa do dia, confiante no declive e no asfalto que esperava encontrar. No entanto as primeiras horas foram muito complicadas pelo vento, uma força brutal que me obrigou a desmontar da bicicleta várias vezes, quando não me jogava para fora da estrada ou tinha limitada minha visão a um palmo, levantando uma verdadeira tormenta de areia.

Depois do vendaval e na medida em que a estrada descia, comecei a sair do mundo da altitude e do vento, visualizando outras geografias.

Cheguei até Santa Rosa (3200m) para visitar nas redondezas as ruínas de Tastil, cidade pré-hispânica que faz parte do caminho Inca. A vila é extremadamente pequena e não conta com alojamentos turísticos nem restaurantes a não ser uma venda onde servem pratos quentes. A moradora Sra. Maria proporciona alojamento simples.


No topo da Cuesta de Lipan

Na manhã seguinte, ansioso para chegar, empreendi a última etapa de minha rota. Havia dias não sabia o que era descanso de qualidade, chuveiro e alimentação adequada. A estrada era quase toda em descida e asfaltada na sua maior parte o que facilitou bastante o meu dia e me permitiu avançar com facilidade. A chegada em Salta (1100m), a maior cidade desde La Paz, foi um pouco complicada, pois ela tem várias pistas e saídas, além do trânsito intenso onde nem sempre se é permitido o tráfego de ciclistas. Tive que atravessar os subúrbios até chegar ao meu hotel no centro histórico. Antes de voltar ao Brasil fiquei desfrutando de passeios pela cidade, comendo fantásticos churrascos e descansando.

Para ler o diário de bordo (relato detalhado) e ver todas as fotos (galeria) acesse o site: www.qhapaqnan.net  e o blog: www.qhapaqnanbike.blogspot.com

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Manuel Rama Terra,viveu muitos anos fora do Brasil,Na Espanha,Alemanha e México. Fotógrafo e Videografo profissional .Desde 1997 desenvolve cartões postais das cidades do Rio de Janeiro,Paraty,Salvador e Ouro Preto com a editora da qual e fundador: M.R.Terra Edições. Em 2002 foi Co-Fundador do Clube de Ciclismo de Longa Distancia:Audax Brasil. Em 2003 foi o primeiro brasileiro a participar e concluir a ultramaratona de ciclismo Paris-Brest-Paris.
 

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