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Por Antonio Augusto Filho e Rodrigo Pinto (agosto/2003) Coneccion Cuba
Toda viagem começa a partir do momento em que se decide fazê-la. A nossa jornada começou muitos meses antes de partimos, exaltados numa conversa de bar após recebermos a notícia da desclassificação de ambos num programa de intercâmbio. Foram meses de planejamento e estudos, para elaborarmos um projeto que consumiu boa parte dos fins de semana livres. Por fim conseguimos alguns apoios e patrocínios, dentre eles o da Tabacaria Caruso e da
Caloi, mas a correria dos preparativos finais havia nos reservado uma última noite em claro antes da saída.
Fomos à ilha de Fidel Castro aguçados pela oportunidade de visitarmos um dos últimos redutos socialistas que o mundo conhece. Uma ilha, cercada de água por todos os lados como toda ilha deve ser, mas isolada também politicamente por sustentar uma ideologia destoante dos demais. No quintal norte-americano, um regime que se sustenta justamente por fazer oposição à maior potência econômica do mundo e para completar, muito sol, praias e paisagens maravilhosas.
Chegamos em Cuba recepcionados por uma forte tormenta tropical que encharcava a janelinha do avião. Ficaríamos ilhados naquele país pelos próximos 56 dias e nosso entusiasmo era incalculável. Decidimos iniciar nossa pedalada no oriente, pois os ventos sopram do Atlântico para o golfo do México, na direção oeste, a mesma direção em que pedalamos a maioria do tempo. Fidel, Che, Camilo e demais companheiros seguiram os mesmos passos da guerra de independência: fortaleceram-se no interior do país para conquistar a capital apenas quando o movimento já estivesse completamente fortalecido. Nós seguimos sem querer o mesmo caminho, sendo empurrados pelos ventos libertários que sopravam em nossa direção e só alcançando Havana depois de fortalecidos pelos quilômetros rodados.
Assim que chegamos, ficamos somente dois dias na capital do país, tempo necessário para conseguirmos embarcar num trem que nos levaria até o extremo oriente do país. A viagem deveria ter durado 12 horas mas se alongou por um dia inteiro devido às três quebras da locomotiva. Chegamos em Holguín exaustos mas já fomos nos acostumando com alguns aspectos do cotidiano cubano que nos acompanhariam até setembro.
Primeira parte - Oriente De lá, seguimos em direção a Guardalavaca, um maravilhoso resort turístico que tenta arrecadar o máximo de divisas externas para sanear as contas do país. Como todo início de viagem, pedalamos extremamente livres e sem preocupação, aproveitando as novas paisagens que se abriam e impressionados com o enorme respeito que os motoristas cubanos tem com os ciclistas.
Seguimos pedalando em direção ao extremo leste por alguns dias com o intuito de chegarmos à Punta Maisí, parte mais oriental da ilha de onde se pode avistar as luzes do Haiti em noites claras. Estávamos numa das regiões mais inóspitas do país onde há quase nenhuma atração para o turista. Mas fizemos bons amigos em Moa, tida como a cidade mais poluída do país, que vive da extração de níquel por uma usina obsoleta chamada Ernesto Che Guevara. Passamos dois dias hospedados na casa de uma família que conhecemos na rua e tivemos a chance de conhecer um pouco melhor a vida de um cubano típico
Seguimos então para Baracoa, primeira vila fundada pelos espanhóis em Cuba, que preserva bastante da sua atmosfera colonial e está cercada de montanhas, mata e mar. Depois de alguns dias, quando faltavam pouco mais de 30km para chegarmos à Maisí, fomos impedidos de continuar nosso percurso. Um policial num posto da polícia nos parou dizendo que a região era área de descarga de drogas e turista algum recebia permissão para passar. Como essa, muitas foram as vezes em que éramos impedidos de fazer algo e recebíamos uma explicação pouco convincente.
Desanimados, atravessamos no mesmo dia a Sierra del Cristal numa guágua (pau-de-arara que transporta passageiros) saindo da cidade de Baracoa, para chegar ao litoral sul nas cidades Guantánamo e Santiago de Cuba. A estrada que liga Baracoa às cidades do litoral sul, foi uma das primeiras conquistas do regime pós-revolucionário, uma obra de engenharia delicada que serpenteia montanhas cobertas de mata. Santiago de Cuba é segunda maior cidade do país, principal palco das lutas de libertação e rival da capital Havana e diversos aspectos culturais e políticos. Festejamos os últimos dias do carnaval de Santiago, tido como o melhor do país e presenciamos as festividades de comemoração do 26 de julho, data nacional de Cuba.
Nesta província e na sua vizinha Granma, fizemos um dos melhores trechos da viagem, numa estrada praticamente deserta, com o Mar do Caribe à esquerda e as escarpas da Sierra Maestra à direita. As subidas difíceis eram recompensadas com as vistas para o mar azul. O trecho terminou com a chegada na Playa Las Coloradas, local de desembarque do antigo iate
Granma, que trouxe Fidel, Che Guevara e mais 80 companheiros que iniciaram a guerrilha na Sierra Maestra contra a ditadura de Fulgêncio Batista.
Segunda parte - Centro Quatro dias enfurnados na caçamba de caminhões lotados, visitando as capitais de províncias da região central do país, foram suficientes para morrermos de saudades de nossas bicicletas. Pegamos a estrada na direção sul, pela qual atravessamos a Sierra del
Escambray. No dia seguinte chegamos à planície costeira onde está a cidade histórica de Trinidad, descendo toda encosta num downhill alucinante de 20 km. Trinidad é uma das cidades mais visitadas de Cuba, com uma atmosfera colonial maravilhosa, belíssimas praias e uma paisagem rural muito interessante. A cidade cresceu devido ao desenvolvimento do plantio de cana de açúcar, principalmente depois da chegada da colônia francesa que fugia da revolução haitiana. O Valle de los Ingenios e a cidade são tombados pela UNESCO como patrimônio da humanidade e aproveitamos ao máximo nossa estada por lá.
De Trinidad seguimos pela costa sul da ilha, passando pela simpática cidade de Cienfuegos para chegar depois de 60 km de estrada de terra e cascalho, onde tivemos quatro pneus furados, até chegar na Playa Girón. Esta pequena vila está localizada na entrada na Baía dos Porcos, local de uma invasão militar apoiada pelos EUA que tentou derrubar Fidel Castro do poder. Hoje em dia o que se encontra na região são belíssimos locais para a prática de mergulho.
Como se podia imaginar os preços de hospedagem seguem os padrões internacionais e passamos apenas o dia pra conhecer. Para se chegar à cidade de Havana pelo leste, existe um túnel para automóveis que passa debaixo do canal da entrada da baía.
A passagem de bicicletas e motos de baixa cilindrada por esse túnel é proibida, mas o governo proporcionou um método alternativo. Pegamos um ônibus adaptado para bicicletas e mobiletes e chegamos à capital privados de nosso último esforço. A sensação que nos abateu quando chegamos em Havana foi a mesma de voltar pra casa. No entanto, passamos apenas a tarde na cidade e seguimos em direção ao ocidente para aproveitar nossos últimos dias de pedal.
Continuamos a beirar o litoral norte da ilha, numa estrada muito mais prazerosa de se pedalar, onde pudemos desfrutar muito mais da paisagem. Em apenas dois dias de pedal chegamos numa pequena ilha chamada Cayo Jutías, onde passamos a noite junto com dois funcionários do pequeno bar à beira-mar. Foi lá que ouvimos pela primeira vez a rádio
Martí, que é transmitida de Miami pela comunidade de cubanos exilados nos EUA e que fazem oposição ao regime de Fidel. Um dos funcionário do bar comentou: "Eles falam o que o governo não diz...".
Dessa região até um pouco mais ao sul da capital Pinar del Rio é onde é plantado o tabaco que depois de um longo e trabalhoso processo se transformará nos melhores charutos do mundo. Foi um dos pedais mais difíceis de toda viagem, mas ter como pano de fundo tanto o Oceano Atlântico ao norte e o Mar do Caribe ao sul vale qualquer esforço. Ao descer dessa "espinha dorsal" da ilha, fizemos nosso melhor
downhill, 4 km de descida forte, onde pegamos a velocidade máxima da viagem: 72 km/h!
A cidade de Havana respira uma atmosfera muito própria. Em todos os conflitos pelos quais o país passou, desde a guerra de independência até a revolução cubana, todas as batalhas se deram longe da capital. Historicamente, conquistar a cidade significou o fim de uma longa luta embrenhada no oriente e seus edifícios permaneceram intactos à mazelas da pólvora e dos canhões. Assim, a cidade abriga um dos maiores complexos coloniais da América hispânica e o contraste entre duas épocas é mais intenso do que se pode imaginar.
Sua arquitetura colonial, a beleza de sua baía e de sua avenida à beira-mar, conhecida como "Malecón" convidam para um passeio a qualquer momento. O contraste entre o novo e velho, bonito e feio, estrangeiro e nacional, é muitas vezes delimitado por uma tênue linha que confunde qualquer sensação. Em cada uma de suas incontáveis ruas, há um detalhe mal tratado pelo descaso do tempo, mas que continua ali, intocado e à espera de um olhar curioso de que vê aquilo como algo singular.
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