Por Fábio Zander  (fev-mar/2003)

CICLOTRÓPICO CAPRICÓRNIO
A ciclo-travessia solitária do continente sul-americano

Antofagasta no norte do Chile, início do Ciclotrópico Capricórnio

Dois meses para cruzar o continente sul-americano sobre uma bicicleta, seguindo o Trópico de Capricórnio e registrando em imagens todos os contrastes encontrados pelo caminho. Nesta viagem solitária, de 3.400 quilômetros pedalados, atravessei o Chile, Argentina, Paraguai e Brasil.

DESERTO DO ATACAMA - Antofagasta, à beira do deserto de Atacama, no norte do Chile, foi escolhida como ponto de partida da pedalada, pois é a última cidade às margens do Pacífico que o Trópico de Capricórnio cruza.

Pelicanos a espera de comida no porto de Antofagasta

Na outra extremidade do continente, a leste, praticamente na mesma latitude, o trópico passa por Ubatuba antes de seguir pelo Oceano Atlântico. Ubatuba foi o ponto final do "Ciclotrópico Capricórnio".

O porto de Antofagasta já foi muito movimentado por causa da extração do cobre e sal no Deserto do Atacama.

Hoje, além dos inúmeros pelicanos, o lugar recebe visitas diárias de alguns leões-marinhos e tartarugas-marinhas à procura de alimento. Na cidade, está o "Monolito Trópico de Capricórnio", que mais parece um enorme portal com aproximadamente 10 metros de altura.

La Portada nas águas geladas do Oceano Pacífico - Antofagasta/Chile

Próximo ao monumento, às margens do gelado Oceano Pacífico, está o símbolo de Antofagasta, a linda "La Portada", uma enorme pedra que, devido à ação do vento e do mar, tem um buraco no centro.

Parti de Antofagasta com destino a São Pedro de Atacama, pedalando pelo deserto mais árido do planeta. O primeiro dia de pedalada foi bastante desgastante fisicamente, com o peso da bicicleta e do equipamento (aproximadamente 50kg) e uma espécie de serra a ser vencida para se chegar ao Atacama.

Monolito ao Trópico de Capricórnio, próximo a La Portada

É possível resumir a pedalada pelo deserto com uma única palavra: impressionante. Em alguns trechos do Atacama não há qualquer tipo de vida, nem sombras.

O que prevalece na geografia são pedras, areia e os tons beges e amarelados. As montanhas são o apoio visual e até psicológico durante a pedalada pelas longas retas.

Pedalei por uma região conhecida como "Pampa del Indio Muerto". Para mim, "Pampa del Cicloturista Quase Muerto".

Ruínas abandonadas no Deserto do Atacama - Chile

Chegando em Calama com quatro dias de pedalada desde Antofagasta, já estava adaptado aos equipamentos. As poucas cidades e vilas espalhadas pelo caminho são importantes pontos de abastecimento de comida e água. Foi assim até a Cordilheira dos Andes.

De Calama, antes de chegar a San Pedro de Atacama, passei pelo "Valle de La Luna", com paisagem de outro planeta.

A pequena San Pedro de Atacama, cheia de turistas europeus, abriga um imperdível museu arqueológico que conta a história da região e de seus antigos indígenas. Lá, existem duas múmias muito bem conservadas que foram encontradas no deserto.

A Igreja de San Pedro de Atacama - Chile

Na cidade também está a famosa e fotogênica Igreja de San Pedro: de qualquer posição que você tirar a foto, ela sairá bem.

É próximo a San Pedro que fica o imponente Vulcão Licancábur, com seus 5.916 metros de altitude. A aduana chilena dista três quilômetros de San Pedro de Atacama, onde começa a parte mais difícil do deserto. A estrada sobe radicalmente, passando ao lado do Licancábur e no "Paso Jama", com 4.640 metros de altitude.

Passando a fronteira com a Argentina a estrada asfaltada termina e sigo por mais cinco quilômetros pelo cascalho até a aduana Argentina, onde passei a noite, a 4.270 metros.

Pedalei durante três dias por altitudes acima de 3.000 metros nos altiplanos do Atacama. Há certa dificuldade para dormir (acampando), respirar e pedalar.

Uma múmia no Museu de San Pedro

Próximo à Cordilheira dos Andes, a vegetação se faz mais presente. Há lhamas e guanacos espalhados pelo altiplano e pequenos lagos salgados. Passei por algumas salinas.

A maior e mais impressionante de todas foi a "Salinas Grandes", imaginando que há tempos remotos tudo foi coberto por um mar.

Apesar das dificuldades enfrentadas durante a pedalada pelo Deserto do Atacama, este foi o trajeto mais solitário e impressionante de todo o "Ciclotrópico Capricórnio".

ANDES E YUNGAS - O trecho percorrido pela Cordilheira dos Andes foi curto e por curvas perigosas até Purmamarca, com parada de descanso de alguns dias em San Salvador. A partir daí, o peso do equipamento é menor, pois não é preciso levar tanta água, já que existem mais cidades e postos pelo caminho.

Curtindo o deserto mais árido do planeta

A região percorrida é bem diferente do que a encontrada no deserto, a oeste dos Andes. As Yungas são florestas tropicais úmidas e a fauna/flora é bastante rica.

Avistei tatus e inúmeras espécies de gaviões, meus companheiros de estrada. Passei por Libertador General San Martin que é porta de entrada para o Parque Nacional Calilegua.

Pedalei por estrada asfaltada na Ruta 34, bastante movimentada por caminhões que seguem para Bolívia. Depois de trinta quilômetros da cidade de Embarcación, virei a direita e segui pela Ruta 81, quase abandonada. Meu objetivo era atravessar o norte da Argentina pelo "Gran Chaco" com destino a Formosa, às margens do Rio Paraguai.

Cactus de 2 a 3 metros de altura, vegetação típica da região
Acampando no deserto
Deserto de sal - Argentina
Estradas de rípio na Argentina, após passar pela fronteira com o Chile (Paso Jama)
As regiões alagadiças do Gran Chaco na Argentina

GRAN CHACO - A estrada tem grande trecho por terra. Foi uma etapa difícil da viagem, pois a região é bastante úmida e de altas temperaturas (até 35° C) tanto de dia como de noite. Fui atacado por densas nuvens de mosquitos ao entardecer.

A linha de trem que segue paralela à estrada foi desativada depois de um acidente ambiental. A ferrovia está abandonada, como as estações das poucas vilas espalhadas pelo caminho. Existe um precário e temporário serviço de vans pela estrada, evitando o isolamento total da população.

O Chaco é uma região bastante úmida e quente, muito parecida com o Pantanal brasileiro. Existe bastante gado espalhado pelos alagadiços da região onde também são vistos cágados. Os gaviões reinam nos céus.

Yungas

Cheguei em Formosa completando um mês de viagem e segui até Clorinda, onde acampei às margens do Rio Paraguai, para no outro dia pegar uma balsa com destino a Assunção, capital do País.

Depois de alguns dias em Assunção, segui com destino à Ciudad del Este, que faz fronteira com Foz do Iguaçu no Brasil. A pedalada pela estrada bastante movimentada foi puxada e inúmeras serras foram transpostas para chegar à beira do Rio Paraná e atravessar sem controle algum a Ponte da Amizade. Enfim, cheguei ao Brasil, já me sentindo em casa.

BRASIL - De Foz do Iguaçu segui até Maringá, ficando praticamente sobre o Trópico de Capricórnio até o final da viagem, em Ubatuba. No Paraná, há pouca vegetação nativa, predominando as grandes plantações de soja e milho e a terra roxa.

Pedalada pela Mata Atlântica - Salesópolis/Brasil

A passagem do estado do Paraná a São Paulo foi sobre a ponte que cruza a grande Represa Xavantes, de Carlópolis (PR) a Fartura (SP). A bonita região é bastante freqüentada por pescadores em finais de semana.

O trecho que segui pela Raposo Tavares (SP-270), de Itapetiningua a São Paulo, foi o mais monótono de toda a viagem, pelo trânsito e por conhecer o trajeto de carro. Cheguei em São Paulo em um domingo. Depois de três dias segui viagem a Ubatuba.

MATA ATLÂNTICA - Driblando o trânsito caótico da cidade, segui com destino à Rodovia Ayrton Senna, antiga Trabalhadores. Logo depois do primeiro pedágio, seguindo para Moji das Cruzes, existe uma placa que marca a passagem do Trópico de Capricórnio pela estrada.

Descendo a Serra do Mar com destino a Caraguatatuba

Depois de Moji, a partir de Salesópolis, a estrada segue cortando a Mata Atlântica numa pedalada tranqüila pela região onde fica a nascente do Rio Tietê. Passei a noite em um posto na beira da estrada, enrolado em meu saco de dormir. A estrada que vem de Salesópolis termina no topo da Serra do Mar. Iniciei a descida da serra pela Rodovia Tamoios com destino a Caraguatatuba.

De Caraguá foram mais cinqüenta quilômetros até Ubatuba pela Rio-Santos, considerada umas das estradas mais bonitas da costa brasileira pelas paisagens e vistas para o mar.
A histórica Ubatuba está localizada nas encostas da Serra do Mar e da bem preservada Mata Atlântica no estado de São Paulo. Ubatuba, próximo ao trópico, é a primeira cidade da América do Sul a receber a luz do sol, já Antofagasta no Chile é a última.

UBATUBA - Cheguei em Ubatuba no início de uma tarde nublada do dia 21 de março de 2003 e terminei em frente ao monumento ao Trópico de Capricórnio, com exatamente dois meses de viagem. O monumento, que tem a forma de uma rosa dos ventos, fica entre a pista do aeroporto da cidade e a Praia do Itaguá.

Como é fantástico, quase inacreditável pensar que a oeste, nesta mesma latitude de onde está posicionado este monumento em Ubatuba, também situa-se aquele "monolito" próximo a Antofagasta.

Monumento ao Trópico de Capricórnio a beira do Oceano Atlântico e fim de viagem em Ubatuba

São milhares de quilômetros e muitos contrastes geográficos vencidos, possibilitando a união do Oceano Pacífico ao Atlântico pelo Trópico de Capricórnio, atravessando o continente sul-americano. Existe melhor meio de transporte, econômico e saudável do que a bicicleta para se viajar e conhecer uma região?

O "Ciclotrópico Capricórnio" contou com o co-patrocínio da Starshine, Houston Bike e apoio da Easy Rider Viagens, Alforjes Arara Una e Agfa Gevaert.

Para maiores informações sobre o "Ciclotrópico Capricórnio" e as palestras que o cicloturista ministra para universidades e empresas acesse o site www.zander.com.br ou entre em contato pelo telefone (11) 3044-5103 / 9804-7013 ou zander@zander.com.br


 
Fábio Zander - 26 anos, cicloturista/palestrante.
Paulistano, pratica o cicloturismo há 10 anos.

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