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Por Rodrigo Ferrari (jan/2007)
CICLOPOIESIS
O projeto CicloPoiesis é uma ação/reflexão que problematiza as relações humanas que foram construídas historicamente desde a origem da humanidade, compreendendo esse processo como a relação do individuo com ele mesmo, do individuo com a sociedade, e do individuo com o ambiente. Compreendemos que os problemas como o aquecimento global, guerras e a miséria são conseqüências da reprodução de um modo humano de existência centrado no desejo de dominar e explorar a Natureza e os seres vivos. Toda proposta dessa iniciativa atravessa a utilização da bicicleta, principalmente como meio de transporte, que na compreensão dos integrantes do projeto cria condições para desencadear transformações nessas relações.
Em janeiro de 2007 realizamos uma
viagem de bicicleta que teve como origem a capital chilena Santiago,
onde encontramos com Maturana e seus colaboradores para realizar uma
reflexão sobre nossas ações cotidianas e nossa responsabilidade ética
diante das ameaças de um possível desaparecimento da vida em nosso
planeta, se não transformarmos nossas relações sócio-ambientais.
Seguimos pedalando até La Paz, capital Boliviana, foram 2 500 km pedalados onde surgiram algumas reflexões durante nossa experiência, que vamos dividir com você, através de uma releitura do diário de bordo escrito durante a viagem. Que esse relato e essas reflexões
despertem muitas questões e diálogos entre os amantes da vida e da bicicleta.
Procuramos pelo Instituto Matriztico coordenado pelo Dr. Humberto Maturana e desfrutamos da companhia de Maturana, Ximena, Patrício e Inácio que conversaram conosco a respeito das relações entre o Projeto Ciclopoiesis e o Instituto Matriztico, tudo acabou saindo melhor do que o planejado, o aprendizado foi especial. Nos dias seguintes, o vento forte, o cansaço acumulado e muita serra, fizeram com que as distâncias dos pedais programados se multiplicassem em nossa subjetividade, mas continuamos vivendo os mistérios da percepção e da realidade que se faz durante o pedalar.
O deserto se antecipou e a aridez foi sentida em nossas carnes. Muito antes do que esperávamos a sequidão dominou a paisagem, nossos lábios rachados pediam água, enquanto o Sol se punha junto aos cactos, espetáculos que matavam nossa sede espiritual durante a contemplação desse evento diário, que frequentemente passa despercebido, ofuscado por nossas responsabilidades e deveres modernos. Quando planejamos essa viagem, estávamos
cientes de que o mundo concreto é diferente do idealizado, por exemplo, fomos
surpreendidos com uma estrada muito difícil para pedalar, com muitas subidas e
decidas e um vento contra na diagonal que soprava do pacifico, aumentando
consideravelmente a dificuldade da pedalada, assim foi até a cidade de
Huentalauquén, Termas Socos, Totoralilo e La Serena.
O caminho se tornou cada vez mais desafiante, o calor, o clima seco e a falta de estrutura entre as cidades eram situações que exigiam cada vez mais planejamento, não podíamos contar com informações fieis sobre o que encontraríamos pela frente, afinal poucos conhecem realmente a diferença que faz 20 km numa viagem de bicicleta. Sendo assim, continuamos nosso caminho com força de espírito e paciência, vivendo cada Km com intensidade, exercitando o estar presente e entregue ao instante que estamos vivendo, nos conhecendo melhor a cada círculo que as rodas de nossos “pés e mentes” completam.
Depois de pedalar através de duas grandes serras entramos oficialmente na região do Atacama, onde registramos 1000 km pedalados. Incahuasi é o “pueblo” portal do deserto, um lugar mágico e sinistro, onde pudemos experimentar como é viver no deserto. As crianças da cidade logo perceberam os “forasteiros” e com seus olhares curiosos e desconfiados se aproximaram, “...de onde vocês são? ... para onde vocês vão?” Depois de tantos momentos intensos o
grupo sentiu a necessidade de um momento de reflexão coletiva para avaliar a
viagem e problematizar algumas dificuldades de relacionamento que surgiram. Cada
um dos “Cicloviajantes” teve a chance de se expressar e colocar para o grupo
suas percepções sobre a viagem... seguimos viagem, pedalando e refletindo em
silêncio pelo resto do dia.
Nesse cenário conhecemos mais um mestre, com 48 anos e mais de 150 mil quilômetros pedalados ao redor do mundo, Vita, um tcheco bastante simpático e humilde compartilhou conosco suas experiências durante um café da manhã típico do deserto. Sua alegria, simplicidade e vitalidade foram os ensinamentos que nos apropriamos desse encontro. Num momento muito delicado da viagem percebemos: Somos diferentes! Cada um tem seu ritmo, seus interesses, objetivos... O convívio diário torna essas diferenças ainda mais intensas. De uma maneira madura, um dos
integrantes (Leonardo) optou por continuar sua viagem em solitário. Apoiamos sua
decisão e lhe desejamos sucesso em suas buscas individuais.
“A pessoa mais importante para mim é o outro que está convivendo comigo naquele presente... assim podemos viver nosso presente e nos conectar com a Matriz Biológica da Existência Humana.” Para chegar em Antofagasta percorremos distâncias de 140 km de deserto sem nada no caminho, isso é assustador quando se esta viajando de bicicleta. Nesse contexto estudamos o mapa e conversamos muito com diferentes pessoas que nos davam informações, muitas delas contraditórias, fazendo com que a escolha do caminho se tornasse algo bastante complexo.
Optamos por fazer um trajeto alternativo pela costa, dessa maneira seguimos até a vila de pescadores Paposo onde fomos acolhidos por uma família local. Na manhã seguinte enfrentamos aproximadamente 50 km de subida, saímos do nível do mar e pedalamos até 2 mil metros a cima do mar, definitivamente foi o trajeto mais pesado de toda viagem. Depois de experimentar as dificuldades da altitude, vento e longas subidas conseguimos abrigo. Pedalamos até Antofagasta muito desgastados, logo na entrada da cidade encontramos uma casa com a bandeira do Brasil, finalmente um prato de arroz e feijão!
Em Calama, 1.939km depois do inicio da viagem, Karina se juntou a nós para conhecermos as belezas do deserto mais árido do mundo. Encontramos Karina e partimos rumo a San Pedro de Atacama, logo Karina percebeu como a água seria um bem precioso durante esta viagem. Estávamos diante de um quadro
psicodélico, montanhas de areia e pedras lindas coloriam a paisagem. San Pedro
do Atacama, uma cidadezinha extremamente aconchegante e charmosa, cheia de
pessoas que buscam aventuras e cenários fantásticos. O Salar de Atacama, e a laguna Cejas também merecem destaque em nossas recordações, com 40% de concentração de sal (maior que a do Mar Morto!) ao mergulhar naquelas águas nos sentimos gratos, apenas por estar vivo!
Estávamos ansiosos para conhecer os olhos do Salar (Ojos Del Salar), mas como não havia mais luz não conseguimos encontrar aquelas crateras cheias de água no meio do deserto, então pedalamos de volta para uma superfície com mais terra e menos sal, onde poderíamos armar as barracas. Mais alguns quilômetros e nos deparamos
com dois buracos gigantes, um de cada lado da estrada, a reação dos 4 foi a
mesma... nem pensamos e mergulhamos nos olhos verdes do Salar. Logo sentimos a necessidade de pedir água para um carro que passou. Coma as garrafas cheias, a insegurança diminuiu.
Karina voltou para São Paulo,
enquanto nós decidimos ficar em San Pedro de Atacama para continuar a
viagem, decidimos pegar um trem de Calama até Uyuni na Bolívia, de
acordo com as dificuldades que encontraríamos para entrar na Bolívia
pedalando. Além da altitude elevada e relevo acidentado, o trecho
contava com estradas em péssimas condições e grandes distâncias sem
pontos de apoio, ou seja, uma travessia por uma zona inóspita que não
estávamos preparados para cruzar.
As passagens para o trem estavam
bastante disputadas e foi preciso passar a noite em uma fila para tentar
comprar-las. A noite foi muito conturbada, foram chegando muitas
pessoas, algumas delas começaram a tumultuar e arrumar confusão. A
madrugada foi longa!!! Em fim, abriram-se as portas para comprar as
passagens, quando chegou a nossa vez, o ingresso se acabou... juramos
por Deus!!!! As passagens acabaram na nossa vez, PASSAGENS ESGOTADAS!!!!
O que fazer?
Assimilamos a mudança e logo no
embarque do ônibus de Calama para Arica no Chile, o motorista cobrou uma
taxa extra para levarmos as bicicletas, ficamos indignados!!!! Porque
cobrar essa taxa se há espaço suficiente no ônibus? Para quem fica esse
dinheiro? De repente, em meio a uma discussão entre nós e o motorista,
um passageiro retira o equivalente a cinqüenta reais do bolso e paga a
taxa extra relativa as bicicletas, imposta sem critério confiável pelo
motorista.
De acordo com a nossa perspectiva, essa integração é muito inteligente e deve ser fomentada em todo mundo, pois compreendemos que a vida de uma pessoa que utiliza a bicicleta como meio de transporte deve ser facilitada e não dificultada, principalmente devido aos benefícios que a utilização da bicicleta gera para o convívio coletivo. Para nós, isso foi como um sinal de que estamos fazendo algo importante e significativo, as pessoas se sensibilizam com nossa ação e estão nos apoiando sempre na hora que mais precisamos. Somos cientes que existem aqueles que querem continuar vivendo na mesma lógica de exploração, mas também existem aqueles que estão transformando essa lógica, e as forças estão a nosso favor!
Na fronteira do Chile com a Bolívia tivemos um grave problema, o guarda boliviano da fronteira nos impediu de entrar na Bolívia, porque não tínhamos o comprovante que havíamos nos vacinados contra a febre amarela. Na realidade esse é um acordo entre os dois paises e o erro foi nosso. Percebemos nossa falha e começamos a conversar com o policial Boliviano, que se irritou e nos levou para uma sala. Quando o mesmo começou seu discurso referente ao problema, compreendemos que o que nos impedia de entrar na Bolívia não era a vacina, e sim uma propina de 10 dólares para os policiais da fronteira, que serviu como comprovante da vacina contra febre amarela. Burocracia e Corrupção... que merda!
Somos cientes que o erro foi nosso, mas também somos cientes, que aquele homem não estava preocupado com a possibilidade de estarmos infectados com o vírus dessa doença e com os problemas que isso poderia gerar para a nação Boliviana, ele estava preocupado com seu “bolso”. Mais uma vez o velho discurso vazio do bem coletivo, a favor do egoísmo estúpido. Finalmente chegamos em La Paz, vivendo o processo dialético de viajar de bicicleta. Planejando, realizando e avaliando, sempre de forma circular e não linear, refletindo e agindo, fluindo na lógica da transformação! Em La Paz percebemos que o cenário de nossa viagem mudou, enfrentamos algumas dificuldades que nos surpreenderam e resolvemos voltar para o Brasil. Houve um deslizamento de terras na estrada que liga o oriente boliviano ao ocidente, voltar para casa foi outra aventura.
Nossa cicloviagem havia terminado, mas a aventura ainda não! Quando estávamos em La Paz, houve um deslizamento de terra na estrada que liga o oriente boliviano ao ocidente, a estrada estava interditada à 15 dias e não existia previsão de normalização das condições de trafego da mesma. Nossa estratégia foi embarcar num ônibus para Cochabamba, uma cidade mais próxima do desastre para especular algumas soluções. Encontramos um ônibus clandestino que estava transportando as pessoas até o local do deslizamento, resolvemos arriscar! Chegamos no local e nos deparamos com um cenário intenso e desafiante, a chuva era constante e milhares de pessoas atravessavam aquele trecho por uma trilha aberta pelos civis e interditado pelas forças armadas bolivianas. Enquanto as máquinas trabalhavam na re-construção da estrada, pessoas como nós “metiam o pé na lama” para atravessar o deslizamento.
Chegamos do outro lado depois de fazer uma travessia muito ousada, carregamos nossas bicicletas que pesavam aproximadamente 30 kg cuidadosamente morro a acima e a baixo, enquanto as pessoas nos alertavam que não era possível passar com as bicicletas pelo caminho. Chegamos ensopados e cobertos de lama, observamos a mesma situação do outro lado, pessoas indo e vindo, carros e caminhões parados e outro ônibus clandestinos com destino a Santa Cruz de La Sierra. Não pensamos duas vezes e subimos em nossas bicicletas e decidimos pedalar, levantamos algumas informações e nos lançamos na estrada de novo. As informações estavam erradas e tivemos que pedalar uns 70 km de bicicleta, pegar uma carona, três táxis e um ônibus para chegar em Santa Cruz de La Sierra somente no dia seguinte.
Em Santa Cruz embarcamos no famoso trem da morte, que não é nada assustador, em direção a Corumbá no Brasil. O trem foi uma experiência muito interessante, nada melhor do que viver uma cultura diferente inserido nela de verdade. A Bolívia é um país muito rico culturalmente, mas enfrente problemas sociais, políticos e econômicos muito graves, é preciso ter paciência e compreensão durante uma viagem por esse país para não deixar os problemas ofuscarem a beleza dessa cultura. Em fim chegamos no Brasil, nossa terra natal que sempre deixa saudades nos corações de qualquer viajante e logo na entrada desfrutamos de um típico prato de arroz com feijão e farinha, um verdadeiro banquete. Estávamos ansiosos para re-encontrar as pessoas que amamos e que ficam com os corações apertados como os nossos quando estamos longe, até que a ansiedade se torne serenidade em cada abraço dividido.
Nesse momento, estamos socializando nossas experiências e abertos para dialogar com todos aqueles interessados em conhecer nosso projeto, realizamos uma exposição fotográfica em São Paulo e vamos realizar outra em Florianópolis, nos dispomos também a promover encontros coletivos com os interessados em conversar sobre os temas que atravessam nossos propósitos e experiências. A próxima etapa dessa viagem que estamos
realizando, provavelmente terá inicio em janeiro de 2008, com algumas surpresas
em relação ao planejamento e o percurso, que será divulgada em breve. Nós no
Projeto CicloPoiesis agradecemos a todos pelo interesse em dividir essas
experiências conosco e também convidamos a todos a continuarem agindo e
refletindo em direção a conservação da vida em nosso planeta, pedalando ou de
qualquer forma possível. Para ver mais informações e o vídeo do
projeto acesse:
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