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Por Arthur Cardoso (/2008)
PEDAL NA ESTRADA 4 - Dias de
Índio
Quando voltei para Yangon, capital de Mianmar, sabia que o sudeste asiático havia chegado ao seu fim para mim. Havia sido uma experiência engrandecedora, mas havia chegado ao seu fim. Era hora de mais uma grande mudança e eu já sabia que não seria pequena. Não era apenas uma alteração geográfica, mas também uma transformação completa de estilo de vida, religião, comportamento, raças, idiomas e clima. Numa definição minimalista: eu não veria mais olhos puxados e nem estátuas de Buda pelo caminho. De toda forma, o que vinha ainda pela frente era completamente novo para mim. Nunca havia estado na Índia e já havia ouvido relatos diversos, alguns bons e muitos ruins.
Ambos alimentavam minha
curiosidade. A Índia que eu tinha em minha cabeça era de um país
espiritualizado e composto por pessoas amáveis, apesar de imensa pobreza
do país. Claro, que essa idéia estava longe da realidade. Era apenas a
visão padrão que qualquer pessoa que um dia se interessou por yoga ou
qualquer outra filosofia oriental teria. A verdade eu estava para
descobrir.
Pensei: isto deve ser a parte mais
pobre da cidade. Algum tempo depois eu já havia descoberto que aquilo
era apenas o padrão Calcutá, que era uma imensa favela. Pior que isso,
aquilo era Índia! Poderia escrever páginas e páginas sobre isso, mas resumindo, o indiano é um sujeito sem valores – ou, pelo menos, com valores completamente distintos do que nós conhecemos.
O que isso significa? Significa
que ele não vê problema algum em te enganar, em fazer todo um teatro
para roubar seu dinheiro, em defecar pelas ruas, em cuspir em qualquer
parede, em pegar algo que é seu e não devolver etc.. E diante de tantas descobertas, eu planejei uma curta estadia por Calcutá, a cidade que abrigou Madre Teresa e que abriga milhares de voluntários do mundo todo atualmente. Entretanto, antes mesmo de eu conseguir deixar a cidade, contraí alguma doença que, além de me levar ao banheiro diversas vezes, me levou também ao médico.
Nem havia chegado e já estava com problemas. Fui para o médico, tomei remédios e não melhorei. Fui então para outro médico e mais que novos remédios eu conheci a máfia do seguro de saúde do país. Para tirar o dinheiro do meu seguro eles não tiveram dúvidas, levaram-me para um bom hospital da cidade e me prenderam alí por 4 dias, o que foi suficiente para que eles fizessem inúmeros exames e injetassem muita coisa em meu sangue. Dias depois eu saí de lá não muito diferente de quando eu havia entrado, mas consciente de que nenhuma bactéria deste mundo poderia ter sobrevivido à tantos antibióticos.
Quando me senti um pouco melhor, segui em direção à Bangladesh, o país mais populoso do mundo. Com uma população semelhante à brasileira numa área menor que o Estado do Paraná, Bangladesh tem gente por toda parte. É difícil de acreditar, mas é verdade. A Índia já era tumultuada, mas Bangladesh conseguia ganhar. Havia gente por todos os lados, e sempre muita gente. Na principal estrada do país, uma única faixa de asfalto sem sinalização onde transitavam caminhões, ônibus, carros, carroças, motocicletas, bicicletas, vacas, cabras, macacos, velhos e crianças, não era um lugar agradável para se pedalar.
Não havia muita coisa para ser vista neste pequeno e pobre país, assim resolvi sair antes que as fortes chuvas começassem. Saí e escapei das chuvas de Bangladesh, que viraram notícias por matarem milhares e desabrigarem milhões. Mesmo assim as chuvas me pegaram na Índia. E aqui quando se fala em chuva, se fala
em monsões, ou seja, quando a chuva começa não para mais por alguns meses. Eu
cheguei justo na hora em que a chuva começou e depois disso raros foram os dias
em que não choveu em meu caminho até o Nepal.
Com as chuvas fortes, essa situação apenas piorou, mesmo assim encarei o desafio e cruzei as regiões mais afetadas pela chuva sobre minhas duas rodas. Neste ponto, a miséria já havia tomado conta da paisagem. A população já havia perdido suas casas
e moravam debaixo de sacos plástico na beira da estrada, bem, isto quando havia
estrada, pois não demorei a descobrir que um longo trecho da estrada também
estava sob água, transformando-se apenas num grande rio. O Nepal era um outro país, diferente da Índia e com traços de sudeste asiático. Já entusiasmado com estas mudanças e com a possibilidade de descansar da Índia por alguns dias eu pedalei à Kathmandú, encarando as altas montanhas do país.
Tudo corria bem até um momento que já cansado e ainda me recuperando dos velhos problemas de saúde, meu corpo literalmente travou nas montanhas. Não conseguia mais me mover e mal conseguia falar. Uma situação inédita para mim, que me assustou. Minha sorte foi que um carro parou neste momento e me levou para Kathmandú, onde eu me recuperei e achei melhor dar um descanso de alguns dias para meu corpo. Estes dias de descanso mostraram um Nepal sensacional para mim. O país era muito melhor do que eu esperava. Mesmo estando na época das chuvas, o que não me deixou subir e nem mesmo ver nenhuma das famosas montanhas do país, a cultura local era bastante agradável e hospitaleira. Ainda debaixo de chuva, eu segui para uma outra bela cidade nepalesa, chamada Phokara, onde passei mais alguns dias, o suficiente para conhecer a região e conseguir a coragem necessária para retornar à Índia.
Sem opção eu desci as montanhas e
segui em direção ao Estado de Uttar Pradesh, um estado particularmente
populoso e famoso na Índia. Toda a paz que eu havia cultivado no Nepal
acabou logo em que eu cruzei a fronteira. Era hora de respirar fundo e
encarar os indianos balançando suas cabeças e os caminhões pintados com
a frase: HORN PLEASE! (“Buzine por favor”). Chegando em Varanasi, um indiano bateu em minha bicicleta com sua moto e quebrou meu bagageiro dianteiro. Agora sim eu estava com problemas. Precisava daquela peça para viajar e sabia que na Índia eu não encontraria mais que alguns pedaços de ferro retorcido e não conseguiria encontrar uma peça nova.
Assim, nesta cidade sagrada, onde
passa o sagrado Ganges, eu fui atrás de uma sagrada solda. Mais que
isso, de alguém que soldasse alumínio. O mais incrível foi que eu
encotrei. Era um sujeito sentado com suas pernas cruzadas dentro de uma
barraco minúsculo. Entreguei o bagageiro quebrado na mão dele e ele
apenas acendeu o maçarico num cocô de vaca em brasa e tacou fogo no meu
suporte. Não ficou bonito, confesso, mas funcionou por algum tempo.
Segui para os templos tântricos do
centro do país, depois Taj Mahal, Rajastão e finalmente Delhi, onde
passei alguns dias para concertar os estragos que o país havia me
causado antes de seguir em frente. Com tudo pronto eu pedalei direto
para a fronteira, para deixar o país. Pedalei com gosto, sabendo que
nada poderia ser melhor que deixar a Índia, mas sabendo que esta
felicidade era contida, pois o que vinha agora era o Paquistão.
Foi um alívio para mim descobrir
isso. E mesmo sob o estado de emergência, recém-declarado pelo
presidente Musharraf, o país ainda continuava agradável. Estes problemas
também não me impediram de conhecer e pedalar por quase todo o país,
sendo apenas escoltado pela polícia local nas zonas mais perigosas.
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