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Por Arthur Cardoso (set/2006)
PEDAL NA ESTRADA 1 - O Sul da América
Na cinzenta manhã de 3 de abril de 2006, eu saí de casa pela última vez,
pelo menos a última vez por um bom tempo. O destino era curto e comum:
Parque do Ibirapuera. Debaixo da típica garoa paulistana eu cheguei no
Monumento às Bandeiras, para então mudar completamente meu destino.
Naquele momento o Pedal na Estrada saía do papel e eu me despedia de
todos, para dar início a esta viagem de quase 3 anos de destino não tão
curto.
A hospitalidade brasileira fez com
que eu não precisasse ficar uma noite sequer num hotel ou hospedagem.
Dormi no chão, em sofás, em corpo de bombeiros, em garagem, em hotel 5
estrelas e em camas muito confortáveis. Conheci muita gente interessante
pelo meu caminho, que parecia ser uma seqüências de coincidências boas.
Porém, uma estrada não é feita só de coisas boas. Conheci gente que não
via além do seu próprio umbigo. E conheci gente que se pudesse apenas
prejudicaria.
Pela principal estrada do país eu
pedalei em direção a Assunção. Foram necessários poucos dias para cruzar
o território paraguaio e chegar em sua capital, onde encontrei alguns
simpáticos brasileiros e uma outra realidade dentro do país dos
guaranis, que me fez esquecer, por alguns dias apenas, que estava numa
das regiões mais pobres da América do Sul.
Foram centenas de quilômetros em
terreno plano e árido, sem água e sem muita vida pela Ruta 16, que corta
boa parte do norte do país. No meio deste caminho, foi a vez de chegar
na seca e empoeirada Pampa del Infierno, que fez jus ao seu nome e me
deu uma noite de febre de 40 graus. Nesse dia precisei procurar o
precário hospital do “inferno” para me medicar e curar minha sinusite e
minha febre que havia chegado em seu pior grau.
Entrei em Salta e dei início a outra fase da pedalada – era a vez
da montanhas, da altitude e do frio de matar os descuidados. Quando
estava prestes a chegar na bela cidade de Salta tive um problema, o
câmbio da minha bicicleta quebrou (até hoje não sei como) e eu fiquei
restrito ás três coroas dianteiras em meio ao frio e aos ventos da
montanhosa região.
De qualquer forma, cheguei vivo e inteiro em Salta, onde esperei 2 semanas até o meu novo câmbio chegar pelo burocrático correio argentino. Com a bicicleta já “nova” eu dei a primeira pedalada em direção às alturas desta alta cadeia de montanhas. San Salvador de Jujuy, Purmamarca e então a Cuesta del Lipán, cujas fechadas curvas me levaram dos 1.200 para os 4.200 metros de altura em apenas um dia. Era o início e a porta de entrada para o congelante Deserto do Atacama.
Foram cinco dias pedalando contra um vento de trincar os ossos, mesmo com todas as camadas de roupa que eu poderia usar, não deixando quase nenhuma parte do meu corpo exposta ao frio direto. Cinco dias acampando entre pedras, montanhas e vicunhas, dentro da gelada barraca que era a única proteção que eu tinha contra o frio de menos 20 que fazia no lado de fora durante a noite. Cinco dias sem muito oxigênio acima dos 4.000 metros de altitude. Cinco dias em que minhas energias se esgotaram por completo e numa noite, quase congelando, cheguei a pensar que iria morrer ali mesmo.
Mas não era a minha hora, esta cedo para morrer, e eu cruzei as montanhas para chegar à primeira cidade chilena, San Pedro de Atacama. Os dias de deserto resultaram em febre e alguns problemas, que me exigiram alguns cuidados especiais. Depois de uma necessária recuperação eu desci, sempre pelo deserto, que parecia não ter fim, até a grande Antofagasta, quando vi o mar depois de alguns meses dentro das regiões mais secas do mundo. O mar trouxe um outro clima para a pedalada, parecia que eu pedalava mais leve pelo simples fato de ter o mar ao meu lado esquerdo e o deserto ao meu lado direito enquanto seguia rumo ao Peru.
Em Arica, minha última cidade
chilena, no extremo norte do país, eu decidi colocar a Bolívia em meu
roteiro. Embarquei para La Paz e o frio forte estava de volta na capital
mais alta do mundo. No país mais pobre do nosso continente eu vi
paisagens de tirar o folego, como o Salar de Uyuni e suas lagunas. Vi
cenas de fortes, como as minas-trituradoras-de-seres-humanos de Potosí e
as tristes condições da população do país. E pedalei por caminhos
bonitos e emocionantes, como a Estrada da Morte para Coroico e ao redor
do Lago Titicaca.
No hospital, fiquei sem saber o que era pior, a higiene da cozinha peruana ou as precárias condições dos hospitais do país. Depois de alguns dias, algumas tentativas e erros, estava curado e pronto para seguir para Cuzco, onde encontrei um amigo brasileiro, já premiado pela cozinha inca – ele estava com febre tifóide. Enquanto ele se recuperava eu fui para Machu Picchu, que apesar dos preços altos é um lugar impressionante. Ao voltar das famosas ruínas, nos dirigimos para Arequipa e o Cañon de Colca, para ver os seus gigantes condores.
De Arequipa eu, sozinho de novo, entrei na Panamericana e pedalei mais de 1000 quilômetros até a cidade de Lima, quase sempre dentro do deserto e de algumas regiões interessantes, como a Península de Paracas e as Linhas de Nazca, que continuam sendo um mistério para o mundo. Durante esta gigante rodovia encontrei, além de areia e montanhas, alguns ladrões e pessoas roubadas, o que fizeram com que eu desse início a uma fase de redobrada atenção para conseguir chegar intácto em Lima. Cheguei ileso na capital peruana.
O caminho tinha seus perigos, mas não era tão alarmante como eu ouvira
dizer. Na capital peruana eu me despedi do meu continente, dando conta
dos problemas de cada país, da desunião e desigualdade de cada nação, na
corrupção que caminha livremente pelas ruas, mas também, percebendo
alguns de seus segredos e belezas, muitas vezes escondidos em seu
interior: na sagrada Pachamama, na Virgem Maria no topo do altar, nas
ruínas de um império dizimado, nos idiomas nativos, nos traços sofridos
dos índios, na necessária folha de coca e no “jeitinho”de resolver os
problemas.
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