Pedalando e educando: 25º Relato

30° Diário - 03 de setembro de 2003 Turquia

Merhaba,

Passamos pela região dos Curdos na Turquia, pelo imenso lago Van, pelas bases dos rios Tigres e Eufrates na histórica área do norte da Mesopotâmia, pelo monte Nemrut onde as grandes civilizações Persa, Grega e Romana se encontraram e, com muito sol e chá, chegamos na Capadócia, no centro do país.

Mapa da rota no Irã e Turquia

UM POUCO DA HISTÓRIA DA TURQUIA
Geográfica e culturalmente a Turquia é a ponte entre os mundos ocidental e oriental. Seus primeiros habitantes chegaram no Mediterrâneo há aproximadamente 10 mil anos atrás. Por aqui passaram gregos, persas, romanos, mongóis, otomanos e hoje várias diferentes culturas se confrontam. Os dois últimos grandes impérios foram o Império Bizantino (Séc. IV ao Séc. XV) e o Imprério turco-otomano (Séc. XV ao Séc. XX). Dentre os fatos recentes se destacam o genocídio dos armênios em 1915, a proclamação da República em 1923, invasão da ilha grega de Chipre em 1974 e a prisão do líder do partido curdo, PKK, em 2001.

 

A Revolução Modernizante de Ataturk - Durante o governo ditatorial de Ataturk (pai dos turcos) entre 1923 e 1938 foram tomadas várias medidas que favoreceram a ocidentalização do país: a abolição sultanato e da poligamia, substituição do direito islâmico por legislações ocidentalizadas, imposição do casamento civil, adoção do alfabeto romano e a separação do governo e religião.

Há duas décadas a Turquia vem tentando fazer parte da União Européia (UE) mas, segundo o relatório da UE, o país não cumpre os requisitos de democracia, respeito aos direitos humanos e às minorias étnicas (leia-se povo Curdo). Por isso as negociações foram adiadas para 2010.

No nosso dia a dia foi fácil perceber o conflito entre a conservadora cultura islâmica e os padrões ocidentais. Muitos homens já foram para a Europa e voltam com histórias esdrúxulas sobre sexualidade e comportamento.

Nos momentos em que estive andando sozinho vários homens me perguntavam se é verdade que no mundo ocidental beijamos as mulheres nas ruas e se realmente fazemos sexo nos parques!! Vários deles, com mais de vinte anos, nunca beijaram uma mulher. Em várias ocasiões homens adultos tentaram ver a Alexandra sem roupa. Uma atitude tão infantil que nem soubemos como reagir.

Numa das vezes peguei o curioso em flagrante olhando nosso quarto por um buraco na porta. Era o próprio dono do hotel. Resolvemos levá-lo para a polícia que aparentemente fez uma notificação e cobrou uma multa. A QUESTÃO CURDA Os curdos são a maior etnia sem Estado do mundo. São ao todo mais de 48 milhões de Curdos. Na Turquia oficialmente eles representam 18% da população do país mas encontramos curdos que dizem serem mais de 25%. São muçulmanos sunitas, falam o idioma curdo e vivem há milênios na região chamada por eles de “Curdistão” que engloba o norte do Iraque, norte do Irã, norte da Síria e leste da Turquia.

Mapa do “Curdistão” Fonte: site www.akakurdistan.com

Os turcos não reconhecem a existência da etnia curda e proíbem seu idioma. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) deu início em 1984 à luta armada sob o comando de seu líder Abdullah Ocalan. Em 1999 Ocalan foi preso e sob pressão curda e européia sua pena de morte foi suspensa. Durante 1999 e 2001 existiu forte repressão aos curdos.

A região que passamos possui a grande maioria curda e em todos os cantos existe um ostensivo movimento militar turco. Nos primeiros dias pensamos que havia ali alguma operação especial do exército. De cinco em cinco minutos cruzamos com caminhões carregados de soldados e jipes-tanques com metralhadoras para todos os lados. Atravessamos dezenas de barricadas com tanques e construções prontas para outra possível guerra contra o PKK.

Várias vilas rurais curdas possuem as casas destruídas por bombas. Numa delas nos convidaram para dormir e jantar. Logo descobrimos que estávamos em uma das bases do PKK. A família vive ali há oito gerações e nos contou bastante sobre sua história.

Curdo

O pai da família disse que, entre outros vários familiares, seu pai e seu irmão morreram na batalha e dois filhos estão nas montanhas junto ao PKK. “- Hoje a situação está bem melhor e o comando do exército turco tem boas relações com os curdos mas isso é muito instável e pode mudar em questão de dias.

Há quatro anos atrás estava muito pior. O exército turco invadiu e esvaziou mais de 3 mil vilas curdas, inclusive a nossa. Já morreram mais de 40 mil pessoas. Meu pai se negou a sair de casa e também foi morto. Minha mãe fugiu para Istambul.

Antes lutávamos por um país independente, o Curdistão, hoje queremos apenas liberdade. Queremos falar nossa própria língua e ter nossos costumes respeitados. Há três anos atrás a polícia turca estava escoltando todos os estrangeiros para passarem com segurança no leste turco. Isso foi hipocrisia, queriam difamar nossos propósitos e nos chamar de grupo terrorista. Nunca matamos turistas.” Nos contou. Que bom. Pensei.

NOSSA TRAJETÓRIA NO LESTE TURCO
Da fronteira com o Irã seguimos com montanhas áridas com um pouco de neve nos topos, muito sol, algumas tartarugas na estrada, pedras e a companhia de pequenos rios que nos deram bons locais para acampar.

Casa de pedra

O povo curdo é incrivelmente hospitaleiro e dormimos em muitas casas. Geralmente as famílias são enormes e todos comem juntos. Os “tapetes de jantar” foram servidos com fartura. As avós possuem voz ativa e se orgulham das grandes famílias.

“– Isso não é nada, tenho muito mais!” Contou-nos uma bisavó que gerou mais de trezentos descendentes. As comidas vinham das plantações e criações próprias. “–Isso é parte da nossa cultura, nossa casa é auto-suficiente e nosso povo também. Não dependemos de ninguém. Temos até nosso próprio petróleo.” Afirmou um curdo.

Castelo de Van

Depois de três dias pedalando e uma overdose de chás chegamos no lago Van, maior lago da Turquia. A temperatura para pedalar e nadar estava perfeita. Na beira do lago existem divisões de lona para que as mulheres possam nadar sem serem vistas pelos homens.

Algum motivo talvez mitológico faz com que as águas de lagos e rios daqui sejam muito pouco utilizadas. Quase não existem barcos e são raros os que se arriscam a nadar no pacato lago.

 Igreja armênia

Após o lago Van passamos pelas bases dos rios Tigres e Eufrates (região norte da Mesopotâmia) e visitamos Diyarbakir, a maior cidade “curda” da Turquia. A parte antiga é cercada por uma monumental muralha romana (segunda maior muralha do mundo - perde apenas para as muralhas da China). Toda região possui muitas ruínas de castelos, mesquitas e igrejas numa mistura de cultura curda, armênia e árabe.

No bolso estamos sentindo que já estamos nos aproximando da Europa. Os preços são bem mais altos do que todos países que já passamos. Felizmente estamos de bicicleta e não dependemos de gasolina que aqui custa mais de um dólar por litro.

Diyarbakir – centro da resistência curda

Para manter nosso orçamento, quando não estamos em alguma casa, fazemos nossas próprias comidas e estamos nos integrando bem à tradição “farofeira” de piquiniques do Oriente Médio.

Para seguir o esquema “economia para a cara Europa” também estamos fazendo acampamento no mato e tomando banho nos rios. Meu fogareiro funciona com álcool que aqui custa dez dólares por litro ou seja, aqui ele não funciona.

Sempre que acampamos, um arruma a barraca e o outro vai procurar madeira para fazermos fogueira e podermos cozinhar. Às vezes parece que estamos na idade da pedra.

Mulheres turcas

Quando ficamos em hotéis estamos alugando um pedaço de laje do teto aonde colocamos nossos sacos de dormir e dormimos a céu aberto. O preço fica mais em conta, evitamos o calor e dormimos à luz da lua.

O leste parece ser a parte mais conservadora da Turquia. Apesar das mulheres possuírem liberdade para roupas vimos várias usando chador ou até mesmo cobrindo toda a cara com os panos pretos. Nas casas de chá encontramos somente homens e nas ruas é difícil ver mulheres após o entardecer.

 Parque Nacional de Nemrut

Passamos por uma área cheia de pedras que parecia a superfície da lua. Vimos muitos pontos de extração de petróleo que produzem aproximadamente 60% do combustível turco.

Atravessamos de balsa a imensa Ataturk barragem e subimos as montanhas para visitar o Parque Nacional de Nemrut. No topo da montanha a 2150 metros de altitude existe o suposto túmulo do rei Antiochus e imensas esculturas de reis e Deuses voltadas para o nascer e pôr do sol. As esculturas foram feitas no período Helenístico durante o reinado de Commagene entre 69 e 72 a.C.

Ponte romana

Pedalamos por três dias no parque e no caminho atravessamos uma ponte romana que foi construida entre 193 e 211 d.C. São tantos monumentos em ruínas em toda Turquia que é impossível visitar tudo que aparece no nosso caminho. Muitos estão caindo aos pedaços e dá tristeza de vê-los sem nenhuma preservação. De Nemrut seguimos rumo à região da Capadócia e suamos para atravessar as imensas montanhas do percurso debaixo de tanto sol. Para não desidratar comemos muito melão, uva, pêssego, figo e melancia e para termos água fresca na bicicleta usamos o incrível macete de colocar as garrafas dentro de meias molhadas. O calor abaixo dos 1000 metros de altitude é forte e muitas famílias migram para o alto das montanhas e vivem acampadas durante o verão.

Nas paradas de beira de estrada sempre encontramos as casas de chá cheias de homens jogando uma espécie de dominó, gamão, baralho e fumando muito. Esta é a diversão que possuem para os três meses de férias de verão.

Mercado

Poucos sabem falar inglês. Chegando mais ao centro do país encontramos muitos que já viveram na Alemanha ou França e o alemão da Alexandra está ajudando bastante.

Chegamos na Capadócia, no centro da Turquia e aqui estamos encontrando muito mais turistas. A região é famosa pois seus habitantes viviam em cavernas esculpidas em rochas vulcânicas... mas isso fica para o próximo relatório.

Grande abraço, Argus


PATROCÍNIO: Cultura Inglesa T-bolt Mountain Bike by Proton Edar
APOIOS: Atex Lajes Nervuradas, BHZ Arquitetura, SOL Serviços On Line, Telsan Engenharia, Prudential Bradesco e Rotary Club
*Os Textos completos você encontra no site: www.pedalandoeeducando.com.br

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