Pedalando e educando: 21º Relato

26° Diário - 15 de maio de 2003 Terai - Índia

Namastê,

Fizemos nossas últimas pedaladas no Nepal e cruzamos novamente a fronteira com a Índia. Descemos o Himalaia e conhecemos a região do Terai, parte plana do Nepal no vale do rio Ganges. Debaixo de muito sol visitamos dois parques nacionais com rinocerontes, elefantes, tigres de bengala, crocodilos, etc.

Mapa da rota Índia-Nepal

 

Ficamos mais alguns dias nadando no lago de Pokhara e depois descemos as últimas montanhas entre o verde das plantações de arroz e o vermelho das flores e das roupas das mulheres nepalesas. Além das roupas vermelhas, a mulher usa adornos de acordo com sua casta e estado civil.

 

Pokhara

Uma mulher casada usa pulseira e colar e quando possue filhos usa brincos. As jóias de ouro são passadas de mãe para filha. Geralmente as avós são as mais enfeitadas com direito a piercing, tika e enormes brincos.

Chegamos na região do Terai que é totalmente diferente do Himalaia. Aqui, no sul do Nepal, estamos no plano a aproximadamente 300m de altitude acompanhando vários afluentes do rio Ganges.

Agora é verão e os rios estão secos ou possuem pouca água. O calor está forte e tivemos dias com temperatura de 40 graus. Pedalamos somente pela manhã, entre 5:00 e 12:00 horas para evitar o sol da tarde que, viajando para o oeste, fica na nossa cara.

Plantação de arroz

Mas apesar do calor estamos passando por aqui em bom momento pois em junho começam as chuvas de monções e pedalar ficaria difícil debaixo de tanta água.

O Terai é o habitat natural do tigre de bengala e vários outros animais selvagens. Depois de eliminar a malária do Terai nos anos 50, habitantes das montanhas e indianos migraram para a região e triplicaram a população. Essa ocupação tem gerado um grande desmatamento e muitos animais estão perdendo seu habitat.

As pequenas cidades que visitamos são muito simples e com uma infra-estrutura deficiente - algumas nem sequer possuem água encanada e energia - e o crescimento demográfico continua a uma média de 2,3% ao ano (2002 est.) e 4,5 filhos por mulher (2002 est.), o que significa que a população ainda irá dobrar nos próximos 30 anos. Antigamente a região era usada como área de caça – a caça mais famosa e deplorável foi talvez a do ex-rei que em 1952 matou 37 rinocerontes, 11 tigres, 3 crocodilos e 19 veados. Além da caça, os animais selvagens, principalmente elefantes, rinocerontes e onças, eram vítimas também dos habitantes que os matavam para protegerem as plantações e animais domésticos.

Uma avó nepalesa

A partir da década de 70 o governo começou a estabelecer áreas de proteção ambiental e criou vários parques nacionais.

O Royal Chitwan National Park foi estabelecido em 1973, possui uma área de 932 km2 e uma altitude entre 150 e 815m. Existem ali mais de 470 espécies de plantas, 56 de mamíferos, 500 de aves, 47 de répteis, 9 de anfíbios, 126 de peixes e 150 de borboletas. Segundo a última contagem oficial o parque possui aproximadamente 450 rinocerontes e 300 tigres.

Um grande desafio para a administração dos parques foi convencer os habitantes a protegerem os animais selvagens e pararem de cortar as árvores para fazerem fogo de cozinha.

Segundo Hem Subedi, administrador da Bird Education Society Nepal, o desmatamento e matança de animais foram controlados através de várias ações entre o parque e a comunidade. Metade do valor da entrada do parque serve para subsidiar a perda das plantações que são danificadas pelos animais selvagens e 35% das casas já substituíram o fogão a lenha por biogás, também subsidiado pelo parque. O biogás é uma alquimia mágica que transforma fezes de animais em gás natural - 30 kg de fezes e 50 litros de água por dia já são suficientes para cozinhar para uma família com cinco pessoas.

Rinoceronte no Parque Chitwan

Visitamos a casa do amigo Kamal que consegue acender 3 lampiões e 2 bocas de fogão usando as fezes das 4 vacas, 3 búfalos, 2 touros, 4 carneiros, 20 galinhas, 2 porcos e 5 pessoas. O custo inicial de todo o sistema é de 200 dólares e a manutenção é praticamente gratuita. Apesar da aparência fétida da vantajosa engenhoca, a produção do gás não fede e a pasta que sobra do processo ainda é utilizada como adubo. Viva a merda! Fizemos um dia de caminhada pelo Parque Chitwan. Para visitar o parque é obrigatório dois guias que usam pedaços de pau para protegerem os visitantes dos animais. Logo no começo os guias passam as instruções de segurança: temos de manter silêncio e, se virmos um rinoceronte, temos de ficar parados pois, apesar de quase cegos, os rinocerontes percebem muito bem o movimento e o cheiro.Caso o animal ataque a única saída é subir em uma árvore pois nada consegue parar duas toneladas a 30 km/h.

No caso do urso não adianta subir em árvore pois ele subirá mais rápido do que nós. Temos que ficar unidos e fazer muito barulho para tentar espantá-lo. Já o tigre de bengala é uma animal tímido e foge quando vê humanos mas não tivemos a sorte de encontrá-lo.

Lumbini – Local onde Buda nasceu

Vimos rinocerontes, crocodilos e muitos pássaros exóticos dentre eles o glamouroso pavão e seu vôo desengonçado. Mas a grande emoção ficou com uma tempestade que apareceu e desapareceu repentinamente no meio do dia ensolarado e nos apedrejou com muito granizo.

Seguimos viagem para oeste e paramos em Lumbini, local sagrado onde Buda nasceu. A cidade se parece muito com os outros locais de perigrinação budista que conhecemos na Índia (Bodh Gaya, Nalanda e Vaishali). Vários templos de diferentes países estão em construção e o local exato do nascimento são ruínas de tijolos e um pequeno lago.

Casa no Terai

De Lumbini fomos para o Royal Bardia National Park numa região onde a migração indiana é muito grande e a linha de fronteira já foi oficialmente modificada diminuindo o tamanho do Nepal.

As cidades são esparsas e algumas noites tivemos de acampar por falta de guest houses. Aproveitamos para inaugurar nossos novos sacos de dormir e colchão térmico.

Finalmente estou com bons equipamentos de camping e parece que o frio que passei nos Andes e na Austrália felizmente não vai mais se repetir nessa viagem.

Saímos da estrada principal e pedalamos sete quilômetros em direção à Banali no Parque Bardia numa simpática trilha de terra. Ali as casas são feitas de barro misturado com bosta de vaca... Olha merda com função nobre de novo!

A simpática vila é toda construída utilizando esse material e a cor bege homogênea dá um tom especial para as casas dispersas no meio da natureza. Alguns aglomerados de casas possuem uma curiosa cerca elétrica para se protegerem dos elefantes.

Vegetação típica do Terai - sal forest

A pequena Banali nos surpreendeu com a amizade dos moradores e resolvemos fazer uma palestra na escola. Mesmo sendo em horário extra-classe conseguimos reunir quase metade da escola e lotamos a sala de aula.

Pela primeira vez estrangeiros entraram nessa escola. A única forma de mostrar as fotos da viagem foi através do notebook e muitos ali nunca tinham visto um computador. Mas o que mais gostaram foi de brincar depois da aula. Principalmente depois que descobri que consigo pedalar com cinco crianças na bicicleta. “Brincar é condição fundamental para ser sério.“ Arquimedes

No segundo dia Alexandra ficou com muita febre. Toda vila ficou envolvida para tentar ajudá-la. Vários foram para a floresta atrás das plantas medicinais que o Bába, o homem bento do hinduísmo, usou para fazer uma bebida milagrosa. A mistura aliviou as dores mas a febre continuou alta (mais de 40 graus!) e resolvemos procurar um hospital.

Seis crianças na bicicleta

A vila é isolada de tudo e o único carro que encontramos para podermos sair dali foi do exército do Nepal que foi extremamente prestativo. Agora Alexandra já está bem melhor, ela ficou doente por beber água contaminada. Voltamos para a vila no outro dia e enquanto Alexandra descansava visitei o Parque, vi mais alguns rinocerontes e nadei nos rios para refrescar do forte sol. Encontrei também perseverantes observadores que passam dias ou semanas parados na selva para poderem ter alguns minutos vendo tigres. Sair do Nepal foi uma missão difícil. O coração tem de ser mais forte que a perna para despedir de tantas pessoas especiais que encontramos no caminho. Agora estamos seguindo pelas montanhas do noroeste da Índia e em breve desceremos para Delhi. Ainda estamos em dúvida qual será a rota pós-Delhi. Grande abraço e até a próxima, Argus “Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando,fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.” Luiz F.Veríssimo


PATROCÍNIO: Cultura Inglesa T-bolt Mountain Bike by Proton Edar
APOIOS: Atex Lajes Nervuradas, BHZ Arquitetura, SOL Serviços On Line, Telsan Engenharia, Prudential Bradesco e Rotary Club
*Os Textos completos você encontra no site: www.pedalandoeeducando.com.br

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