Clube de Cicloturismo do Brasil - Manual de Dicas Para Cicloturista de Primeira Viagem - por Eliana Garcia

BICICLETA

QUADRO
CÂMBIOS E COMPONENTES
ADAPTAÇÕES E ACESSÓRIOS

No Brasil, devido às condições de nossas estradas, o cicloturismo é feito 
quase que exclusivamente em mountain bikes. As únicas estradas que ofereceriam condições para se utilizar bicicleta do tipo estrada ("speed" ou "caloi 10") são as grandes rodovias, onde o tráfego é intenso e quase sempre a bicicleta é proibida de circular. 

Mesmo que o roteiro escolhido passe apenas por estradas asfaltadas, não vale a pena arriscar encontrar um asfalto esburacado e um acostamento de terra numa bicicleta speed. 

Ainda, a mountain bike dá maior versatilidade, você tem a chance de mudar seus planos e ir conhecer algum local que não havia previsto. Mas se a sua única bicicleta é speed, é claro que deve viajar assim mesmo. Escolha um roteiro adequado e prepare-se para remendar pneus, pois com o peso extra da bagagem isto acontece mais facilmente (e a chance dos raios quebrarem também é maior).

Na Europa é comum a utilização de bicicletas tipo híbridas, intermediárias entre moutain bike e speed, são ideais para o cicloturismo, pelo menos quando a intenção não é enfrentar estradas de barro, pedra, areia...

QUADRO

Tamanho

Este é um item importantíssimo, principalmente se você tem bem mais ou bem menos do que 1,70 m de altura. Isto porque a maior parte das bicicletas fabricadas e vendidas no Brasil tem suas medidas adequadas a uma pessoa desta estatura (quadro n.18). 

Pedalar uma ou duas horas numa bicicleta de tamanho errado pode não trazer grandes problemas, mas numa viagem, ao enfrentar o dia inteiro encolhido ou esticado demais, certamente o corpo irá reclamar.

Por exemplo, as pessoas mais altas costumam compensar um quadro pequeno, aumentando o tamanho do canote do selim para deixa-lo na altura certa. Não raro, duas coisas podem acontecer: o guidão fica muito abaixo e o peso do ciclista recai sobre as mãos, provocando dores nos pulsos. Fica um pouco pior a situação quando na tentativa de aliviar o esmagamento sobre o selim, coloca-se a ponta do mesmo inclinada para baixo, jogando ainda mais o peso sobre os pulsos. Devido à posição muito abaixada, o ciclista é obrigado a ficar o tempo todo com o pescoço curvado para cima, causando dores nesta região também. Caso abaixe o selim para tentar resolver o dilema, a conseqüência será dor nos joelhos, o que sempre inspira cuidados.

Se a próxima tentativa for elevar a mesa e o guidão, para que acompanhem a altura do selim, as dores passarão a ser nas costas e nos joelhos, muito provavelmente. Nas costas, pois numa posição mais vertical, todo impacto recebido no selim é transmitido diretamente para a coluna. Numa posição mais horizontal, este impacto é menor, pois a coluna está dobrada e o peso é divido com os braços.
Os joelhos também sofrerão nesta posição, pois quanto mais inclinado o corpo sobre a bicicleta, mais os músculos das nádegas trabalham, dividindo o esforço das pedaladas com as pernas e aliviando os joelhos.

Já se o quadro for grande demais, o tronco ficará muito esticado, não permitindo a leve flexão dos braços, que amortece os impactos no pulso, isto causará dores e dormência nas mãos. Também provocará dores nas costas. 

Consulte boas lojas de bicicleta e artigos de revistas, para descobrir o tamanho mais adequado de quadro para você, lembrando que as proporções entre pernas, braços e tronco variam muito de uma pessoa para outra e as regras gerais de tamanho podem não servir para você. Por isso, alguns campeões de ciclismo se dão ao luxo de encomendar quadros perfeitamente adaptados para suas medidas.

Estatura do ciclista

Altura do tubo do selim  (cm)

Altura do tubo do selim  (pol.)

1,55 m a 1,60 m

45 a 48 cm

14 pol.

1,60 m a 1,65 m

48 a 51 cm

15 pol.

1,65 m a 1,70 m

50 a 53 cm

16 pol.

1,70 m a 1,75 m

52 a 55 cm

17 ou 17,5 pol.

1,75 m a 1,80 m

54 a 57 cm

18 ou 18,5 pol.

1,80 m a 1,85 m

56 a 58 cm

19 ou 19,5 pol.

1,85 m a 1,90 m

57 a 59 cm

20 ou 20,5 pol.

1,90 m a 1,95 m

58 a 60 cm

21 pol.

1,95 m a 2,00 m

59 a 62 cm

22 pol.

 

Geometria

Para o cicloturista geralmente é mais importante um quadro que privilegie o conforto do que a performance ou rendimento. Assim, os quadros mais semelhantes aos de bicicleta de estrada levam vantagem. Nestas, normalmente, o tubo superior (que liga o guidão ao selim) é bem horizontal. Não é inclinado como nas mountain bikes. O garfo tem uma curvatura para frente, deixando o eixo da roda dianteira bem à frente da linha do guidão. Isto faz com que os impactos sejam melhor absorvidos e o guidão fique mais estável.

Um guidão tipo passeio é mais recomendável que um reto, tradicional de mountain bike. Os de tipo passeio não proporcionam uma posição tão "agressiva" na bicicleta nem dão tanta firmeza para manobras, mas são muito mais confortáveis numa viagem.

É comum cicloturistas maiores reclamarem que os calcanhares batem nos alforjes traseiros. Ao se afastar os alforjes para trás, corre-se o risco de eles entrarem na roda, provocando um tombo feio. Por isso, em algumas bicicletas, especiais para cicloturismo, há uma distância maior entre a roda traseira e o tubo que desce do selim.

Material (somente serão abordados aqui os materiais mais comuns) 

Cada ciclista tem sua preferência, mas atualmente a maioria opta pelo alumínio pela economia de peso. Porém há que se levar em conta alguns fatores além deste. O primeiro é o conforto, já que o alumínio não absorve tão bem os impactos quanto o aço, transmitindo-os principalmente para as sofridas mãos e nádegas do(a) ciclista.

Outro fator é o risco do quadro quebrar ou entortar. Mesmo que você seja um cicloturista do estilo tranqüilo, que não exija da bicicleta o mesmo que um competidor,é bom lembrar que muitas viagens incluem percursos de avião, ônibus ou ainda imprevistas caronas em carrocerias de caminhão. Vai ser muito difícil achar um local que remende alumínio, que requer um tipo especial de solda provavelmente encontrável somente em algumas capitais. Se a viagem for longa e por locais isolados, o mais seguro é utilizar um quadro de aço que pode ser reparado com solda comum, encontrada em oficinas mecânicas e até mesmo em algumas fazendas.

Uma ótima opção para o cicloturismo são os quadros em cromo-molibidênio (CroMo), que por ser uma liga de aço, aceita solda comum, e além disso são bem leves.

Suspensão

Mais uma vez, não há lei que indique o certo ou o errado, é só uma questão de se avaliar o custo benefício de cada acessório. A vantagem sem dúvida é o conforto proporcionado, que seguramente compensa a perda de rendimento. Deve-se levar em conta, porém, a dificuldade de serem adaptados os bagageiros traseiros e dianteiros (recomendo seu uso sempre), além disso, o peso extra e a inclusão de mais um item que requer manutenção durante a viagem.

CÂMBIOS  E  COMPONENTES

O cicloturismo exige bastante das peças e componentes da bicicleta. Vale a pena investir num grupo de peças bom, que evitarão que você gaste seu precioso tempo de viagem regulando ou consertando coisas pelo caminho. Se for viajar por locais isolados, leve também em consideração este fator, para não ficar a pé, no meio do nada.

Não que seja imprescindível uma bicicleta especial para realizar a viagem, nem é necessário que se compre tudo de uma vez, mas se o intuito for viajar várias vezes, compensa investir aos poucos na melhoria do seu veículo. Por ordem de prioridade colocaria:

Selim: confortável, e principalmente...confortável. Não há cicloturista que não reclame ao subir na bicicleta após alguns dias de viagem. Isto não quer dizer que o melhor seja aquele de estilo "poltrona de avião", enorme e fofo. Um banco grande vai prejudicar o movimento das nádegas na pedalada e incomodar a região interna da coxa. É bom que o banco seja macio, mas de formato mais fino. Às vezes é necessário testar vários para chegar a algum adequado a sua anatomia. Nunca saia para uma viagem longa sem antes utilizar o selim em viagens mais curtas.

Blocagem rápida nas rodas e no selim: fazem a vida do cicloturista mais feliz. Não é um investimento pesado e facilitam muito as operações de montagem e desmontagem da bicicleta para transportá-la; e ainda mais na hora de remendar os inevitáveis furos de pneus.

Câmbios e catracas: os grupos Shimano STX (minha preferência) agüentam bem mais do que os Alívio ou inferiores. Há vários cicloturistas que utilizam a linha Altus e Acera e dizem não ter problemas. Os top de linha XTR, apesar de mais precisos, podem ser muito sensíveis e exigirem mais regulagem e manutenção. E é mais importante que o câmbio traseiro seja bom, do que o dianteiro. Este é menos exigido, podendo inclusive não ser indexado. A corrente com certeza deve ser boa, compatível com o grupo de peças escolhido.

Número de marchas: não importa tanto. O que conta mesmo é qual a relação mais leve e a mais pesada do conjunto. As catracas de mais velocidades (8 ou 9) não possuem nenhum ganho neste ponto. O que as diferencia é que há mais opções de marchas intermediárias. Isto faz com que haja um controle mais exato do esforço das pedaladas. Porém as correntes necessárias são mais finas e menos resistentes. Além disso, a regulagem do câmbio é mais difícil. Enfim, uma catraca padrão de 7 velocidades e uma coroa menor com 24 ou 26 dentes costumam ser suficientes mesmo para quem é mais turista do que ciclista (meu caso).

Portanto, nem tudo que é top de linha é o mais recomendável para cicloturismo, que exige robustez além de qualidade.

Cubos e movimento central selados: são muito indicados porque praticamente não requerem manutenção. Se suas viagens incluem lama, areia e água isto é especialmente importante.

Freios tipo V brake: quanto menos força você tiver na mão, mais importante será este investimento. Frear uma bicicleta carregada não é o mesmo que ela vazia. As mãos do cicloturistas sofrem bastante e se puder poupá-las, melhor. Se o freio for do tipo cantillever comum, escolha um manete longo, que fará uma alavanca maior, diminuindo o esforço. Os freios a disco pesam muito e exigem manutenção delicada, nem são tão necessários, já que geralmente o cicloturismo não envolve um "downhill" com alforjes e tudo.

ADAPTAÇÕES  E  ACESSÓRIOS

Dentre os imprescindíveis estão: um odômetro, bagageiro e alforje traseiros, porta caramanholas e espelho retrovisor. 

Um odômetro simples, somente com funções básicas como medir velocidade, distância total e parcial, já é mais do que suficiente. Não imagino viajar sem um, sem controlar o quanto já rodei e o quanto ainda falta. É necessário ter uma marcação própria, pois as informações sobre distância recebidas num caminho às vezes são totalmente disparatadas, variando de 7 a 50km para um mesmo trecho. Quanto às marcas existem várias confiáveis, como a clássica Cateye, cujo modelo mais simples é inclusive resistente à chuva. 

Os bagageiros permitem que você acomode uma quantidade enorme de bagagem, que nunca seria possível carregar nas costas. Mais uma vez, o alumínio não é aconselhável, pelo menos no bagageiro de trás, que deve levar mais peso. Um detalhe que faz muita diferença é a fixação do bagageiro na bicicleta. Ela não deve ser feita nem junto com os eixos, na parte de baixo, nem junto ao canote do selim, na parte de cima, como aliás são os modelos mais comuns. O bagageiro instalado assim, atrapalha na hora de serem retiradas as rodas, dificulta a centralização destas e força desnecessariamente o eixo e o parafuso que prende o canote. O ideal é que o dianteiro seja instalado diretamente no garfo, através de braçadeiras e o traseiro utilize aquela "orelhinha" do quadro acima do encaixe dos eixos, mas que nem todas as bicicletas têm. Na parte de cima, a fixação deve ser na barrinha que liga as duas balanças (os tubos que sustentam a roda traseira) ou em local equivalente. O bagageiro dianteiro é menos comum, mas faz uma diferença enorme, ajudando na estabilidade da bicicleta carregada. Porém, na divisão entre bagageiro traseiro e dianteiro, ele deve acomodar no máximo 30% do peso, para não forçar o garfo.

Quanto ao desenho do bagageiro traseiro, os melhores modelos são os que não permitem a entrada dos alforjes na roda, sendo mais amplos na parte posterior. Infelizmente, são muito raros no Brasil.

Os alforjes são essenciais para que o peso seja colocado mais próximo ao chão e não sobre o bagageiro, o que deixa a bicicleta completamente instável. Eles são de diversos tipos e modelos, e é mais um item de escolha totalmente pessoal. É interessante que sejam reforçados, feitos de nylon cordura. Quanto mais bolsos melhor, bolso nunca é demais. Os que têm a abertura em zíper levam vantagem sobre os de abrir somente por cima (estilo mochila de caminhada). Isto porque tudo aquilo que você precisar no caminho vai estar invariavelmente escondido no fundo do alforje. Depois de tiradas as coisas elas nunca voltam pro lugar, e é terrível ter de fazer arrumação de alforje no meio da estrada. Quanto ao formato, não podem ser muito largos, porque desestabilizam a bicicleta. Os alforjes traseiros não podem ser muito longos, para não baterem nos calcanhares nem entrarem na roda. A fixação no bagageiro deve ser o mais simples possível, para facilitar carregar e descarregar a bicicleta (o que acaba acontecendo quase todos os dias). Mesmo porque, com o peso os alforjes tendem a não saírem muito do lugar, exceto em trechos muito íngrimes. Para proteger os alforjes da terra e da chuva, as capinhas de nylon são bem práticas.

As caramanholas ajudam a não se ter preguiça de tomar água sempre. No mínimo duas, instaladas no centro do quadro. Mais opções são: um suporte em cada lateral dos garfos e as bolsas de guidão com espaço específico para elas. Lembre-se de que as caramanholas de cores claras deixam a água fresca por mais tempo. 

O espelho retrovisor além de obrigatório por lei é realmente importante. Nem sempre é possível escutar os carros vindo pela estrada, fica bem mais fácil dar uma checada no espelho do que ficar virando para trás o tempo todo. Não se preocupe se sua bicicleta vai ficar "incrementada" demais, sua segurança vale mais do que preocupações com a estética.

Os firma-pés, ou pedaleiras, podem ser usados sem problemas, pois aumentam o rendimento e ajudam a manter uma pedalada mais solta e "redonda". Antes de sair de viagem teste se o calçado que vai utilizar se encaixa com folga na pedaleira. Caso contrário pode causar dores e dormência nos pés. O uso de sapatilhas tem o enorme inconveniente de não permitir a utilização de outro calçado para pedalar. Perde-se muito em versatilidade, já que a sapatilha não é confortável para ser utilizada como um tênis comum. 

Um pezinho parece frescura, mas se você tiver um, vai utilizar sempre que parar a bicicleta para pegar qualquer coisa nos alforjes, ou seja, vai usá-lo bastante. Ele será útil para evitar que você fique sempre procurando um lugar para apoiar a bicicleta ou tenha que deita-la no chão (isso é especialmente ruim quando o chão está molhado ou enlameado). Outra vantagem de não ter que colocar a bicicleta no chão é não ter que levanta-la depois... O problema é conseguir um pezinho forte o suficiente para agüentar a bicicleta carregada. Os modelos comumente encontrados nas bicicletarias são muito fracos. 

Bar-ends, guidão clip (tipo triathlon), ou qualquer outro tipo de extensão para o guidão, são sempre bem vindos. Como no cicloturismo se passa várias horas por dia pedalando, quanto mais opções de posicionamento na bicicleta melhor. 

Um farol e uma luz traseira vermelha são importantíssimos, mesmo que a intenção não seja pedalar à noite. O farol é um equipamento de segurança, que não é substituível por lanternas de mão ou de cabeça. O farol não trepida pois vai preso ao suporte do guidão e ainda pode ser utilizado como lanterna.

Uma capa de gel para o selim não chega a fazer tanta diferença, mas ajuda um pouco, além de proteger o selim.

A bolsa para transporte de bicicleta vale muito a pena quando você for realizar trechos da viagem de ônibus ou avião. Ela protege a bicicleta e diminui os problemas para embarque em ônibus e metro. É importante que seja leve, pois durante a viagem de bicicleta ela será praticamente um peso morto.
 

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