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O ESPANHOL CORAJOSO
por Eliana Garcia
(jun/2008)
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Juan Menedez Granado
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O espanhol asturiano Juan
Menéndez Granados atravessou a América do Sul do Oceano Pacífico ao
Atlântico de bicicleta numa expedição solo. Na Amazônia, tornou-se oficialmente
a pessoa mais jovem a atravessar esta região cheia de perigos sozinho e sobre
duas rodas. Mas não pedalou somente na selva, também percorreu o Deserto do
Atacama e a Cordilheira dos Andes.
“La entrada en la selva provoca en mi un sentimiento muy especial. Las cascadas
caen desde lo alto de la montaña. La vegetación lo cubre todo. El calor es
espantoso. La temperatura puede no ser muy fuerte, pero el elevadísimo grado de
humedad hace que uno sude a mares...”
Entrevista realizada em agosto de 2005:
Como
começou no cicloturismo?
Aos 14 anos, com passeios próximos, com mais 2 ou 3 amigos e logo fui aumentando
as distâncias. Fiz o Caminho de Santiago com um amigo aos 16 anos. Os amigos
foram parando e eu continuei fazendo expedições mais difíceis. Ao todo foram
três vezes em Santiago, por caminhos diferentes. A partir desta terceira viagem
em diante sempre viajei sozinho. A viagem que mudou minha vida foi a expedição
Transpirenaica, aos 20 anos. Cruzei do Mediterrâneo ao Atlântico pelos Pirineus,
sempre por estradas de terra, com muitas cercas, muita dificuldade de orientação
e acampando sempre.
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acampando com falta de água nos Andes
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Qual foi
a mudança que esta viagem provocou na sua vida?
Foi muito duro, aprendi a sofrer, pois foi uma viagem muito extrema. O Caminho
de Santiago foi muito fácil em relação a esta. Aprendi a planejar de verdade e
também a improvisar. E depois desta expedição foi que resolvi deixar minha
carreira profissional. Foi bastante difícil falar isso para os meus pais. Mas
foi a melhor coisa que fiz, cada dia que passa agradeço por ter tomado esta
decisão. Acho que o currículo é mais importante que o título. Nesta época senti
falta de aprender inglês, pois em todo o mundo se fala inglês. Então fui sozinho
para a Inglaterra. Tive bastante dificuldade para me comunicar no início, fiquei
cinco meses lá trabalhando (em jornais, fábrica de pizzas congeladas, etc).
Fazia hora extra para conseguir juntar dinheiro para a próxima expedição, que
foi para a Escócia.
Na volta para a Espanha comecei a planejar a viagem para o Marrocos. Sempre
busco dificuldade mas a expedição do Marrocos foi extrema demais. Tive
dificuldade com água, orientação, língua, dinheiro....Para economizar, ao invés
de ir de avião para lá, fui de carro, larguei o carro e peguei a balsa. No
Marrocos peguei trem e ônibus. Lá falam árabe, berebere e um pouquinho de
francês. Eu me virava com palavras básicas do guia de línguas. Tenho boas
lembranças.
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de Arica até os Andes foram 220km de subida pelo Atacama
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E como
foi o planejamento da viagem para o Brasil?
Foi um planejamento em tempo recorde, um mês e meio para conseguir
patrocinadores, equipamento, logística, tudo. Estava pesquisando quando descobri
que a melhor época para vir era janeiro, por isso tive que fazer tudo muito
rápido.
Como você
escolheu o roteiro?
Olhando para o globo posso falar sempre de milhares de projetos, mas a Amazônia
sempre me atraiu muito, pela mata, pelos índios, pelos animais e pela
dificuldade. Atravessar a Amazônia de bicicleta é uma das expedições mais
temidas do mundo. No final fiquei um pouco decepcionado. Já sabia que não iria
ver bichos, mas vi muito menos mata do que imaginava.
Escolhi começar num oceano e terminar no outro e queria conhecer também outros
países, então escolhi o caminho mais longo e mais interessante também. Saí do
Chile, subi a Cordilheira dos Andes, cruzei o deserto do Atacama e fui conhecer
o Titicaca e Machu Pichu.
Qual foi a maior dificuldade?
Por ser uma expedição auto suficiente com condições muito distintas, foi
incrivelmente duro. O deserto mais árido do mundo, as cordilheiras muito altas e
depois ainda a Amazônia.
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consertando a bicicleta nos Andes
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E quanto
ao equipamento que carregava?
Fiquei também decepcionado. Tive muitos problemas técnicos. Os meus tanques de
água, tipo sanfona, estragaram logo nos primeiros dias, pois o material não
agüentou. Improvisei com garrafas pet , que duram mais que estes equipamentos
tecnológicos.
O filtro de água quebrou no segundo dia de Amazônia, os parafusos dos bagageiros
também deram muitos problemas assim como os alforjes que eram para ser
impermeáveis.
Que parte foi mais difícil?
O começo, pois era a primeira vez que levava tanto peso, inclusive no bagageiro
dianteiro. A bicicleta fica mais estável, não tende a empinar, mas demorei para
me acostumar. Foi duro também por que tive que subir a 4600m. Foram mais de
200km de subida. Subi bem devagar para me aclimatar, isso foi muito bom, não
tive nenhum problema com a altitude.
Tive que carregar 10 litros de água no deserto, mesmo assim fiquei sem água
várias vezes, não tinha água nem para tomar café da manhã.
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subindo para Machu Pichu
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Como foi
no Peru e na Bolívia?
Quando cheguei no altiplano tive a dificuldade de cansar muito rápido. Pedalava
20km e já estava cansado. Além disso, peguei época de chuva ali e a estrada era
de uma lama arenosa, muito difícil. Mas também peguei o carnaval lá, foi uma
grande festa. Na Bolívia e no Peru é tudo muito informal e você tem que ficar
muito esperto. Acabei ficando doente em Copacabana, por conta de um remédio para
dor de dente que provocou uma gastrite.
Fui para Machu Pichu e foi muito bacana. É um lugar emblemático e subir lá de
bicicleta foi muito bom. De lá subi um paso muito alto, a altitude chegou
a 4871m. Peguei chuva e terreno muito ruim. Depois disso veio a mata peruana. O
bagageiro dianteiro quebrou quatro vezes, até que decidi fazer um de ferro. Nas
estradas peruanas a mata era fechada mesmo. E havia muitas pedras redondas
grandes. Em alguns trechos foi pior do que a Transamazônica.
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pedalando na Transamazônica
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Como foi
a passagem para o Brasil?
Notei uma mudança de mentalidade muito grande. O peruano é muito conformado com
os problemas. Já o brasileiro tenta fazer as coisas melhorarem, mesmo que muitas
vezes faça tudo errado, rs.
Na transamazônica peguei o final da época de chuvas, com muita lama. Chovia sem
parar, mas logo chegou a seca. A Amazônia é plana só vista de cima, na verdade
ela é toda ladeira. O barro me fazia atolar muito e passei fome e sede às vezes.
Cada quilometro na Amazônia é um triunfo. E foram 2400km, todos eles muito
duros.
E a recepção
das pessoas na Amazônia como foi?
Foi absolutamente maravilhosa. Dividiam a comida comigo, davam o pouco que
tinham, convidavam para parar, de forma verdadeira. Foi maravilhoso,
maravilhoso! Muitas vezes tive que deixar as coisas nas casas para resolver
problemas com a bicicleta e nunca ninguém mexeu em nada.
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a estrada de barro
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E o
contato com os índios?
Passei dois dias com os índios, já tinha pego autorização com a Funai, que
demorou 8 dias para sair. Fui para o mato com eles caçar. Só o cacique usava
flechas, o resto usava espingarda. Começamos o caminho de 4x4 e depois andamos
bastante. Eles ganhavam bastante dinheiro com a ajuda do governo e por uma rede
elétrica que passa na área deles. Tinham até brancos trabalhando para eles. Só
os velhos falavam a língua indígena, os mais novos estavam perdidos entre uma
cultura e outra. A aldeia que visitei era dos Kyiatejé, fica fora da
transamazônica, perto de Marabá. Ah, quase ficaram com a minha câmera, pediam a
todo instante.
O final da viagem como foi?
Cheguei ao Atlântico em Salinópolis, no Pará. Na chegada a Belém os ciclistas
fizeram uma recepção para mim, foi emocionante.
O que foi mais marcante para você no Brasil?
Uma das coisas foi a hospitalidade. Mas fiquei muito impressionado com os
problemas sociais. Meninas grávidas, crianças sem pai, muitos com HIV. Também
fiquei assustado com a falta de fiscalização do desmatamento. Eles desmatam à
vontade.
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problemas no meio da selva
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Como foi
para conseguir patrocínio?
Tive que fazer um projeto muito bem feito. Pressionei bastante, por estar com
pouco tempo. Pedir patrocínio é muito muito difícil. Pelo que vi, talvez no
Brasil seja até mais difícil ainda. Muita gente não cumpre o que prometeu ao
patrocinador, não faz a divulgação combinada, isso atrapalha muito. Meu trabalho
de divulgação começa agora, voltando para Espanha tenho muito trabalho, o
importante é que tenha muita mídia.
Sua família o apóia?
Não, eles não me apóiam em nenhum projeto. Tive muitas discussões, quase me
mandaram embora de casa. Meu pai me falou para nunca contar com ele para nada.
Mas meu objetivo na verdade é pedalar. E quando terminei esta expedição eles
disseram que estavam orgulhosos. Isso foi muito importante para mim.
Quais seus projetos futuros?
Meu sonho é dar a volta ao mundo e viver de projetos de viagem.
Para saber mais sobre esta e
outras expedições de Juan Menéndez Granado:
www.jmgbiker.com
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