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O YOGA E A BICICLETA
Goura Nataraj Das (maio/2007)
A relação do ser humano com o seu habitat envolve necessariamente a questão do
seu deslocamento neste habitat. Meios de transporte que estejam mais em sintonia
com a natureza se tornarão mais e mais requisitados, desde que a sustentação do
esquema do óleo - petro-óleo - têm se mostrado como uma das coisas mais
desastrosas nas quais a humanidade já se meteu.
Podemos pensar desde os numerosos vazamentos nas praias e mares, com
conseqüências duradouras aos locais onde ocorreram tais incidentes (Galícia,
Alasca, Paranaguá, Rio Iguaçu, Líbano etc.), até a poluição das cidades onde se
torna cada vez mais desagradável ter que pegar o carro para fazer algum
deslocamento qualquer devido às inúmeras complicações que ele provoca.
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A cultura do petróleo deve ser
questionada. À ela está atrelada uma série de vícios sociais - ter um carro é um
status, o carro é um símbolo, não é apenas um meio de transporte. Para termos
nosso carro precisamos de estradas, combustível - e sim, vamos concordar com os
nossos economistas, é esta indústria que atualmente sustenta o sistema
financeiro mundial.
Mas, até que ponto devemos considerar isto desejável? Quantas pessoas não são
mortas todos os dias por estas máquinas, pela pressa injustificável do esquema à
que estamos submetidos, a saber: trabalhar-consumir-trabalhar?
É este o mesmo sistema que coloca o lucro sempre acima das relações sociais, que
não tem nenhum problema moral em justificar o trabalho infantil ou a exploração
de mão-de-obra barata para os seus próprios fins?
Sim, os carros são úteis e são uma das maravilhas do engenho humano - não
estamos propondo aqui a abolição dos automóveis - apenas o seu uso sensato e
equilibrado - pois, convenhamos, invoquemos o bom senso (aquilo que todos,
teoricamente, segundo Descartes, temos de sobra, ou pelo menos achamos que
temos) e analisemos imparcialmente a questão.
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Coloque-se de um lado a bicicleta
e do outro o automóvel. De um lado temos um transporte que favorece e melhora
nossa saúde, nos coloca na rua, em contato direto com o que acontece ao ar
livre, é não poluente, é auto-sustentável em termos de combustível, exige apenas
nosso próprio esforço e é muito mais agradável e esteticamente mais bonito. Do
outro lado temos o carro - poluente, que nos torna mais e mais passivos, exige
toda uma indústria agressiva para se locomover, ocupa o espaço de pelo menos 4
bicicletas, provoca mortes e acidentes diariamente. É um minotauro moderno ao
qual devemos oferecer sacrifícios constantes.
De fato, poderíamos até refletir sobre a atual passividade da vida moderna - com
seus prazeres passivos, divertimentos que não estimulam a criatividade, e toda
sua estrutura de alienação e esquecimento de si - e o seu símbolo maior: o
automóvel.
E o que o Yoga tem a ver com tudo isto? Em primeiro lugar um yogi é alguém
consciente de si e de seu habitat - portanto questionar a cultura do automóvel e
tudo o que ela representa está dentro do projeto yogiko.
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Podemos até pensar na bicicleta
como um complemento aeróbico para os exercícios de asanas. Podemos diminuir o
karma negativo desta Kali-yuga usando mais a bicicleta, tentando ir ao trabalho
ou aos nossos estudos com ela; forçando a sociedade a reconhecer a insensatez do
esquema atual e a revolução que as duas rodas podem nos proporcionar.
Um deslocamento feito de bicicleta
é sempre uma experiência de interação com o mundo, de reconhecimento dos
percursos, das pessoas e do que nos rodeia. A bicicleta é, de fato, o meio de
transporte anarquista - ela favorece a independência e a liberdade dos
indivíduos.
Referências:
No site www.bicicletada.org tem várias informações e outras coisas legais sobre
a revolução das bikes. O blog http://apocalipsemotorizado.blogspot.com/ também é
muito legal e é um bom fórum para se trocar idéias e ficar a par do que
acontece.
Pra finalizar este acréscimo ao sutra da bicicleta anarquista, insiro uma
pequena e inofensiva paráfrase das palavras de Marx - cuja crítica do capital se
aplica naturalmente a nossa crítica do automóvel - o símbolo moderno do capital.
Harih Om!
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'Aquilo que mediante o dinheiro é para mim, o que posso pagar, isto é, o que
o dinheiro pode comprar, isso sou eu, o possuidor do próprio dinheiro. Minha
força é tão grande como a força do dinheiro. As qualidades do dinheiro –
qualidades e forças essenciais – são minhas, de seu possuidor. O que eu sou e o
que eu posso não são determinados de modo algum por minha individualidade.
Sou feio mas posso comprar a mais bela mulher. Portanto não sou feio, pois o
efeito da feiúra, sua força afugentadora, é aniquilado pelo dinheiro. Segundo
minha individualidade sou inválido, mas o dinheiro me proporciona vinte e quatro
pés (Ou quatro rodas!!), portanto não sou inválido.
Sou um homem mau, sem honra, sem caráter e sem espírito, mas o dinheiro é
honrado e, portanto também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, logo, é
bom o seu possuidor; o dinheiro poupa-me, além disso, o trabalho de ser
desonesto, logo presume-se que sou honesto.
Sou estúpido, mas o dinheiro é o espírito real de todas as coisas, como poderia
seu possuidor ser um estúpido? Além disso, seu possuidor pode comprar as pessoas
inteligentes e quem tem o poder sobre os inteligentes não é mais inteligente que
o inteligente?
Eu, que mediante o dinheiro posso tudo a que o coração humano aspira, não possuo
todas as capacidades humanas? Não transforma meu dinheiro, então, todas as
minhas incapacidades em seu contrário?
Se o dinheiro é o laço que me liga à vida humana, que liga a sociedade a mim,
que me liga com a natureza e com o homem, não é o dinheiro o laço de todos os
laços? Não pode ele atar e desatar todos os laços? Não é por isso também o meio
geral de separação? É a verdadeira marca divisória, assim como o verdadeiro meio
de união, a força (...) química da sociedade.'
Marx, Karl, Manuscritos Econômico-Filosóficos
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Goura Nataraj Das -
Goura é estudante do yoga há mais de 10 anos, tendo estado já algumas
vezes na Índia para aprofundar estes estudos. Aqui no Brasil tem como
referência o trabalho do professor Pedro Kupfer e demais yoguis da nossa
terra. É formado em filosofia e vê a bicicleta como um caminho libertário,
bem como o yoga. |
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