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TURISMO
SEM SENTIDO
Se
você perguntar para as pessoas o que elas mais gostam de fazer na vida, pode
ter certeza: viajar vai estar entre elas. Não que de fato as pessoas viagem
sempre, mas viajar é parte do imaginário, dos planos ou dos sonhos da maioria
de nós. Mas na prática, o que fazer naquele curto tempo de um mês (às vezes
nem isso), que recebemos numa desequilibrada proporção de onze meses
trabalhados para um de férias? O desespero por sair e mudar se torna tão
grande que esprememos todas as capitais do Nordeste ou da Europa em trinta dias.
Na chegada, revelamos as fotos e nem nos lembramos onde foram tiradas, de tão
pouco tempo que ficamos em cada lugar. Qual o sentido disso?
Este
turismo tradicional e globalizado, não traz experiências verdadeiras ao
viajante, a única coisa que muda é o cenário. Tudo previsto, tudo agendado,
montanhas de compras e suvenires. E as únicas lembranças de moradores locais
que se possa ter conhecido são, no máximo, donos de restaurantes e pousadas,
que aliás, são comumente de outros lugares.
Tentando
escapar disso tudo, tive a chance de viajar de moto por uma estrada em que já
havia passado muitas vezes de carro. Para minha surpresa, percebi que não
conhecia realmente aquela estrada, somente as paisagens. Passei a sentir o vento
e o ar frio, acompanhar o relevo e a notar alguns sons ao meu redor. Mas foi
pouco, e logo veio a sensação de que aquela estrada poderia oferecer mais.
Resolvi fazê-la novamente, só que de bicicleta. Foi uma experiência tão
marcante, que me fez adotar este estilo de viagem definitivamente. Era a
primeira de uma série de viagens que se sucederam nos últimos treze anos. A
bicicleta abriu as portas para o imprevisto: acampei em fazendas, dormi em
postos policiais e albergues para idosos; conhecendo gente que eu nunca
imaginaria ter contato antes. Senti um pouco como é a vida de pessoas muito
diferentes, de caçadores, pescadores, e também de prefeitos e jornalistas.
De
carro naquela mesma estrada, num trecho em obras, por mais que diminuísse a
velocidade, os que vinham passando a pé viravam a cabeça para o outro lado,
esperando uma nuvem de poeira. Pedalando devagar, estes mesmos que vinham
passando cumprimentavam, acenavam e até gritavam de longe: Boa Sorte! Para as
bicicletas as pessoas estão lá, dispostas a conversar, compartilhar água,
abrigo e comida, daí entendi a fama de hospitaleiros que os brasileiros têm.
Esta hospitalidade dá ao Brasil uma vantagem enorme em relação a outros países, o que vem compensando nossa falta de estrutura. E aos poucos, tem aumentado nosso número de cicloturistas. Mais gente para descobrir roteiros, reivindicar ciclovias e tratamento adequado nas estradas. Quem sabe um dia, vou poder passar novamente pela Rodovia Rio-Santos, porém numa via reservada para bicicletas e vê-la transformar-se em uma meca do cicloturismo mundial...