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O
CICLOTURISMO E A FOTOGRAFIA
Walter Magalhães (Maio/01)
Em 1997 encontrei um poema de
Mário Quintana: “A verdadeira arte de viajar”.
como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os
compromissos, as obrigações estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e coração cantando!”
Quando fiz a minha primeira viagem de cicloturismo ainda não havia
lido esse poema, mas confesso que sem saber de sua existência, foi exatamente
assim que me senti. Livre, sorriso largo, vento
no rosto, fugindo de casa com a alma aberta para abraçar o mundo,
pedalando pelas estradas da França.
Estava fascinado com tantas descobertas: culturas, histórias, pessoas,
acontecimentos, paisagens... mais que isso, aos 28 anos também estava me
descobrindo interiormente, senti que nunca mais deixaria de viajar de bicicleta.
Cada
dia de viagem era um desafio, uma experiência nova, maravilhosa. Sensação difícil
de saber nos meses de planejamento que antecederam o primeiro dia da viagem. Uma
ansiedade gostosa invadindo os pensamentos. Uma “viagem pelo imaginário”,
quase um filme buscando mostrar antecipadamente como seriam os lugares, as
pessoas, o meu estado de espírito. Essas sensações sinto até hoje antes de
começar uma viagem.
Muitos
não percebem, que apenas passam por lugares e pessoas e não as vivenciam.
Talvez pela impaciência, pela distração ou mesmo pela pressa de simplesmente
querer chegar ao destino.
Esse é aquele que sempre estava à nossa frente no percurso, preocupado em apostar quem ia mais rápido, quem chegava primeiro no topo da montanha... Talvez, inconscientemente, quisesse provar ter o melhor preparo físico.
Que
pena! Nem mesmo seus olhos “fotografaram”, não “viajaram” pela bela
viagem que fizemos.
É
por isso que o fotógrafo Henri Cartier-Bresson costumava dizer que sua câmara
fotográfica era uma extensão de seus olhos.
Passou a observar o mundo através dela.
E
para os cicloturistas, será
exagero dizer que a bicicleta é uma extensão do outro extremo do corpo? Afinal, passamos a conhecer melhor o mundo com os pés nos
pedais.
Regressar
de uma viagem sem imagens é quase como não ter viajado. O que se viu vai
se perdendo com o tempo. Pouca coisa restará na memória. Uma fotografia
é uma janela para um mundo de informações de um momento único, que já se
modificou logo após clicar o botão da máquina fotográfica. Aquele exato
momento já não existe mais no mundo real. A fotografia é mais que imagem, é
a memória.
Hoje
posso ver uma fotografia minha, tirada no tripé e disparada pelo automático
depois de alguns ajuste feitos por mim. Ver uma imagem é bem diferente de
imaginá-la, mesmo assim a descrevo: - estou sentado num banco pintado de branco
e minha bicicleta toda equipada encostada ao meu lado. A minha frente um lago
imenso e um vulcão com seu pico coberto de neve, parece emergir das águas
e atingir as nuvens.
Neste
exato momento sou meu próprio espectador. Pois essa imagem retida no tempo, está
bem aqui a minha frente, mostrando-se viva para minha lembrança e revelando um
ponto exato da minha história.